Canal Zero

A avalanche da carne na tevê aberta

Trocando em Miúdos: Uma série de pautas e programas sobre o consumo de carne invadiu a nossa tela recentemente. Sem mensagem sutil, grandes patrocinadores desejam retorno rápido.

Um reality de culinária traz duas equipes de competidores que precisam preparar algo para uma turma enorme de motociclistas, que chegam invocados levantando poeira em suas  motos Harley-Davidson. Você já não viu essa cena antes no sucesso MasterChef Brasil, que acaba de estrear a sua terceira temporada? Provavelmente, a resposta é sim. Mas, exatamente o mesmo conceito foi descaradamente copiado pelo BBQ Brasil – Churrasco na Brasa, no ar pelo SBT: todo o esquema de competição, e até mesmo o perfil dos jurados, é parecidíssimo. Mas, neste último caso, os churrasqueiros amadores se dedicam a cozinhar somente com, é claro, carne.

E foi essa cena – confesso que não consegui assistir ao episódio todo, tamanha é a repetição de formato no reality -, que me fez ter o clique: faz tempo que tenho reparado que a carne anda onipresente em diversos programas de tevê, principalmente na Globo. Do diário Mais Você ao semanal É de Casa, dá-lhe chefs de cozinha e apresentadores bolando receitas ou temas de pauta “como fazer um bom churrasco”. E tudo isso porque a JBS-Friboi é hoje uma das maiores patrocinadoras da tevê aberta – e, obviamente, está empenhada em incentivar que o brasileiro coma carne.

“Curiosamente” (e bota ironia nessas aspas), na semana passada, a apresentadora Ana Maria Braga foi nomeada como embaixadora da Academia da Carne, uma plataforma digital hospedada no site da globo.com com receitas, vídeos e outros conteúdos – que é patrocinada, justamente, pela Friboi.

É inegável afirmar, mesmo não apoiando o consumo de carne, que o hábito ainda permeia muito a vida e o cotidiano do brasileiro. Entretanto, felizmente, há um crescimento no movimento do vegetarianismo, por exemplo, ou, ao menos, uma conscientização sobre comer animais, ou seja, ter noção que eles são seres sencientes, que são mortos para consumo. Sentem dor, e, na esmagadora maioria, são criados e confinados de maneira cruel. O autor Michael Pollan, e outros vários pesquisadores da área de alimentação, costuma colocar a carne – e carne, lembre-se, não é apenas boi, mas de todos os animais, inclusive, frango e peixe – não como o prato principal, mas sim como o “tempero” dentro de um prato criado com outros elementos, como cereais, grãos e vegetais. É a forma mais sustentável, tirando, é claro, o vegetarianismo, de se cozinhar.

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O autor Michael Pollan costuma colocar a carne não como o prato principal, mas, sim, como o ‘tempero’ dentro de um prato criado com outros elementos, como cereais, grãos e vegetais. É a forma mais sustentável, tirando, é claro, o vegetarianismo, de se cozinhar.

Para se ter uma ideia, o setor agropecuário é responsável por 90% do consumo global de água, pois são gastos milhares de litros para a produção de apenas 1 quilo de carne. E os dados vão além: cerca de 70% da área desmatada da Amazônia é usada como pasto. E esse tipo de informação, além de outros mercados, não tem capital financeiro para competir com o tamanho investimento desse segmento nas grandes emissoras, que, com programas repetitivos e pautas bobas, tentam empurrar o consumo goela abaixo. E, certamente, a estratégia deve funcionar.

Morte

Recentemente, o apresentador Rodrigo Hilbert foi bastante criticado por matar um filhote de ovelha na atração Tempero de Família (leia análise feita por Maura Martins). Muitas pessoas, a esmagadora maioria, aliás, não-vegetariana, o criticaram. Ver um animal morrer em um abate, de fato, é chocante, mas é o que acontece no Brasil a cada minuto nos grandes frigoríficos, que escondem a parte “suja”, “chocante”, “que traumatizou muitas crianças”, mostrada por Hilbert, para vender apenas o ingrediente, já bem embalado e conveniente.

Em tempo: recomendo A Carne é Fraca, do Instituto Nina Rosa, que mostra todos os impactos do consumo de carne. Está disponível no YouTube.

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Isadora Rupp

Isadora Rupp é natural do interior do Paraná e está em Curitiba há mais de 10 anos. É formada em jornalismo pela Universidade Positivo e especialista em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Foi repórter do jornal Gazeta do Povo por cinco anos – quatro deles no suplemento cultural. Também fez textos críticos para a revista de cinema Juliette.

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