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‘Big Brother Brasil 18’: a vida é como um jogo

Ao analisar a atual temporada, coluna debate as razões que fazem com que o programa 'Big Brother Brasil' continue fazendo sentido depois de tantos anos no ar.

Todo ano, o texto que escrevo para comentar o programa Big Brother Brasil inicia com o mesmo espanto: é realmente surpreendente notar a longevidade deste reality show e a capacidade que ele tem de continuar interessando a tanta gente depois de longos anos na grade da Globo. É ainda mais inacreditável se formos observar que este é, afinal, um programa sobre nada – ou melhor, um programa sobre as miudezas da vida cotidiana, sobre as migalhas das interações humanas, aquilo que mal conseguimos descrever em palavras. Em suma: BBB centraliza-se na difícil tarefa que é conviver com os outros cotidianamente.

Por isso, o material do BBB é, por essência, inesgotável: todos os anos, um novo elenco é recrutado para vender (e vender-se) à emissora aquilo que tem de mais precioso – sua intimidade, naquilo que tem de mais miúdo, mais automático, as suas próprias ações e reações. É quase como se Boninho reescrevesse, a cada início do ano, uma nova edição de A Comédia Humana (com o perdão pela heresia da comparação com a obra de Balzac), e cada ano nós continuamos vidrados espiando para ver como são as pessoas do lado de lá de suas janelas.

Neste ano de 2018, não parece ser diferente. Com poucas semanas no ar, Big Brother Brasil 18 parece ter acertado na escolha de um elenco que topa concretizar uma “novela da vida real” (ou seja: aceita entrar em brigas, formar alianças, jogar sujo/ limpo, etc.). Logo já nos primeiros dias, alguns elementos dramáticos despontaram: um triângulo amoroso (entre Breno, Jaqueline e Ana Clara); uma polêmica (o possível excesso de carinho entre Ana Clara e seu pai, Ayrton); uma rivalidade quase mortal (entre Ana Paula e Mahmoud); uma discussão sobre a representação de minorias em programas de audiência superlativa (tema recorrente nas falas de Mara e Nayara).

Pois bem: BBB 18 segue repercutindo as questões que reverberam na vida lá fora “da casa mais vigiada do Brasil”- e aí está mais uma razão possível a explicar a longevidade do programa. Nesta edição, até o debate sobre imigrações está minimamente representado: há um imigrante sírio, Kaysar, que compõe o elenco. Há participantes, como Nayara, que reivindicam (provavelmente de uma forma não muito eficiente) igualdade entre homens e mulheres e monitora a representatividade dos negros no programa (em um episódio, ela encrencou com Viegas por ele brincar usando um lenço na boca, o que reiteraria a ideia de que negros são bandidos). Houve até uma tentativa de debate sobre lugar de fala: Mahmoud, assumidamente gay, ofendeu-se com Ana Paula logo na primeira semana por ela o chamar de “veado”, em tom de brincadeira, ainda que esse seja uma gíria quase recorrente entre os homossexuais. Foi o que precisou para que se desenhasse uma rivalidade entre ambos.

E aí chegamos à bela metáfora que sustenta todo o programa: a ideia que a vida é como um jogo. Na vida, assim como no BBB, somos quase que obrigados a escolher estratégias para “jogar o jogo” do viver junto.

E aí chegamos à bela metáfora que sustenta todo o programa: a ideia que a vida é como um jogo. Na vida, assim como no Big Brother Brasil, somos quase que obrigados a escolher estratégias para “jogar o jogo” do viver junto. O sucesso do reality show talvez se explique justamente porque ele nos confronta com as nossas próprias escolhas: como você se comporta quando precisa tomar uma decisão ingrata, como a de ter que enviar alguém ao paredão, ou ter que demitir alguém, ou ter que encerrar um relacionamento? Como você se porta quando ouve algo que o desagrada: sente-se ofendido e reage imediatamente (como Mahmoud ao indicar Ana Paula para o paredão), ou prefere deixar para lá em nome de uma convivência pacífica (os que escolhem o estilo “panos quentes”, como Lucas)? Há alguma postura que é mais vantajosa (ou correta, ou ética, ou moral, ou fácil) que a outra?

É claro que esta é uma novela que permanece sendo costurada o tempo todo por uma mão mais forte, representada por Tiago Leifert que justifica as ações que toma em um onipotente “grande irmão” (o que remete à obra de George Orwell, e pode ser personificado no diretor Boninho ou na própria ideia da empresa, a Globo) e dá pistas de como essa narrativa deve se desenrolar. Ao anunciar um dos paredões, Leifert deu a deixa, de forma quase poética (pode existir poesia num programa sobre nada?): no Big Brother Brasil, assim como na vida, não dá para vencer por WO. Traduzindo: não se ganha na vida pelos cantos; é preciso ir para a guerra, dar a cara a bater, e não ficar invisível feito samambaia esperando ganhar algo por inércia.

Com características bem marcadas, Mahmoud (na foto, em briga com Jaqueline) é um dos protagonistas da atual edição. Foto: Divulgação.

Em suma, é preciso jogar o jogo. É preciso ser protagonista e não coadjuvante. O programa – graças, em partes, à edição construída, é preciso destacar – já parece ter as suas estrelas. Ayrton e a filha Ana Clara, por exemplo, são interessantes pela dinâmica paternal/ filial que desenvolvem. Lucas aparece bastante e personifica uma espécie de “líder isentão”, alguém que assume a dianteira dos processos mas tenta ser o mais justo possível, lutando para não desagradar qualquer um dos colegas (mas o jogo do “grande irmão” não deixa escolha: para chegar até a final, é preciso criar inimizades). Há até um trio de antagonistas, batizados pela edição como “Trio Mandinga”: Ana Paula, Patrícia e Diego formam uma espécie de coro cuja função nesta “ópera” parece ser justamente o de falar mal dos outros. O fato de Ana Paula ter se definido como bruxa já no vídeo de apresentação foi o suficiente para que o tom “místico” pudesse ser colado a eles.

E talvez ninguém se coloque tanto no jogo quanto Mahmoud, que, por isso mesmo, tornou-se um dos personagens centrais desta “novela”. Já mostrou-se impulsivo, propenso a gerar polêmicas, a prometer vinganças, a prejudicar a todos (quando, atrapalhadamente, rompeu uma das regras do programa e levou a todos os brothers a entrar no grupo “tá com nada”, que recebe pouca comida). Profundamente humano, Mahmoud acaba angariando empatia justamente por assumir-se falho. Em um dos episódios, resumiu, quase que profeticamente: “não seria eu mesmo sem os meus defeitos”. Espero que ele consiga permanecer no programa por um longo tempo.

Mahmoud, inclusive, conseguiu emplacar uma polêmica bem pitoresca: participou de um barraco com Jaqueline por ter falado mal da participante por não ter recebido o anjo “prometido” por ela durante um momento de descanso dos dois. Jaqueline ficou brava, negou ter feito a promessa, mas os olhos do big brother são imbatíveis e registraram a cena dividida pelos dois na cama.

Durou poucos dias, mas a polêmica foi tão forte que virou um “jaquelinegate” e concretizou um pesadelo: imagina que terror será o dia em que TODAS as nossas interações forem filmadas e jogadas o tempo todo na nossa cara? Quando tudo que fizermos, de alguma forma, virar documento? E mais uma vez, BBB segue falando sobre nós: em uma época de hipervigilância – que já foi prevista, aliás, justamente pelo 1984 de George Orwell que inspira a ideia do programa -, talvez este pesadelo não esteja assim tão longe da realidade.

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Maura Martins

Maura Martins é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e doutora em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP). É professora e coordenadora dos cursos de Comunicação Social do Centro Universitário UniBrasil. Desde 2003, é pesquisadora das narrativas midiáticas, investigando especialmente assuntos ligados à televisão, ao telejornalismo e aos encontros do jornalismo com a literatura.

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