Canal Zero

O racismo por trás das câmeras

Coluna discorre sobre o episódio do vídeo vazado em que o apresentador William Waack profere comentários racistas.

Já comentei algumas tantas vezes neste espaço que vivemos em uma época em que o visível reina absoluto na cultura. São tão numerosos os “olhos” mecânicos espalhados por todos os lados – nas ruas, nos ambientes profissionais, nos recantos dos lares – que fica difícil imaginar algum acontecimento do mundo que não esteja, em alguma medida, sendo registrado. Isto, claro, acarreta mudanças em todas as instâncias da vida social. Afinal, é preciso sempre levar em consideração o fato de que podemos estar sendo vistos, mesmo quando nos imaginamos “protegidos” da visão alheia.

Na semana que se passou, tivemos o muito repercutido evento com o apresentador William Waack, afastado de seu posto como âncora do Jornal da Globo após vazamento de uma “sobra” de uma transmissão nos Estados Unidos, na qual emite expressões racistas. Considero a postura da Globo louvável ao afastá-lo, tomando uma pronta atitude condizente à repercussão do caso nas redes sociais. No entanto, uma mensagem proferida por um usuário no Twitter (leia abaixo) foi direto ao ponto: “a Globo não afastou William Waack por racismo. Afastou porque o vídeo vazou”.

A frase é de uma precisão cirúrgica. Faz questionar em que ponto as ações assumidas pela empresa – que atendem à pressão popular, que não pode ser ignorada – refletem de fato uma postura institucional ou mais visam o gerenciamento de uma crise, no intuito de manter uma imagem positiva e correta da emissora. Valeria a pena fazer a pergunta: se o vídeo não tivesse chegado às redes, William Waack teria sofrido a mesma punição? O fato de que o editor que vazou o vídeo tenha declarado não ter feito isto antes por medo de ser demitido nos traz pistas sobre qual seria a atitude da Globo.

O caso se configura em mais um exemplo de como vivemos tempos em que as tecnologias (aqui representadas pelas câmeras que geram imagens inesgotáveis), em si mesmas, não são boas nem ruins, pois podem servir a diversos fins.

Comentei já diversas vezes, no espaço desta coluna, sobre o quanto a ubiquidade de imagens na cultura contemporânea tem levado por vezes a excessos nas ações punitivas nas quais tendemos a nos engajar ultimamente. O caso se configura em mais um exemplo de como vivemos tempos em que as tecnologias (aqui representadas pelas câmeras que geram imagens inesgotáveis), em si mesmas, não são boas nem ruins, pois podem servir a diversos fins. Por um lado, escancaram os comportamentos nocivos outrora reservados aos bastidores, como os comentários racistas de William Waack; por outro, devassam a vida de indivíduos em uma reação desproporcional.

Lembro-me de dois casos que inspiram esta reflexão, também ligados a casos de racismo: o da moça filmada enquanto xingava o goleiro Aranha em um jogo do Grêmio, e o da relações públicas Justine Sacco que jogou mensagens preconceituosas no Twitter enquanto voava para a África do Sul, foi execrada nas redes sociais e teve sua carreira encerrada dentro de sua profissão (caso investigado pelo jornalista Jon Ronson no livro Humilhado – Como a era da internet mudou o julgamento público). Ambas, podemos dizer, cometeram atos horríveis, mas é cabível assumir que suas punições – a “morte” de suas reputações, concretizada por todos nós – foram desproporcionais aos danos que cometeram.

Mas penso que há agravantes no caso do William Waack que o tornam mais escandaloso. Se consideramos que é possível separar sala e cozinha (em suma: se acreditarmos que é possível que Waack seja racista mas consiga ser um bom jornalista, pautado pela imparcialidade), é preciso lembrar que seus comentários não foram proferidos no isolamento de sua casa (o que não os tornaria menos execráveis), mas no seu próprio ambiente profissional, em meio a outras pessoas, assumindo o risco de que alguém, caso não filmasse, “vazasse” sua postura pelo boca a boca. Revela, portanto, que o racismo que sua fala carrega é naturalizado, visto como piada inofensiva, típica do racista que jamais se reconhece como tal. É tão natural a ponto de ser compartilhado com um convidado do telejornal, como se fosse uma mera interação.

Por fim, é inevitável pensar que o escândalo que atinge William Waack atinge a própria Globo, como mídia hegemônica superpoderosa e alvo de incontáveis críticas por parte da população. De alguma forma, o racismo não surge de um “civil” qualquer (para quem talvez essa punição coletiva fosse desproporcional), mas de uma figura de poder com capacidade de influenciar muita gente. A Globo, como grande empresa que é, corre por uma reação no intuito de descolar sua imagem à desse profissional, preferindo jogá-lo aos leões e levantar a bandeira de “tolerância zero”. De novo, jogo a questão: e se o editor tivesse deletado o vídeo, o que isso diria sobre a emissora? E se a figurinista que denunciou o assédio sofrido por ela (e quantas outras?) pelo ator José Mayer não tivesse se manifestado, o que isso significaria?

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Maura Martins

Maura Martins é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e doutora em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP). É professora e coordenadora dos cursos de Comunicação Social do Centro Universitário UniBrasil. Desde 2003, é pesquisadora das narrativas midiáticas, investigando especialmente assuntos ligados à televisão, ao telejornalismo e aos encontros do jornalismo com a literatura.

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