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A magia do excesso em ‘A Bela e a Fera’

Grande sucesso internacional de bilheteria, o musical 'A Bela e a Fera' faz justiça ao clássico da animação dos Estúdios Disney que lhe deu origem. Apesar de problemas de ritmo, o filme é uma exuberante superprodução que enche os olhos e arrebata em seus melhores momentos.

Desde a estreia, há duas semanas, de A Bela e a Fera, remake com atores de carne e osso do clássico da Disney, lançado em 1991, tenho observado um fenômeno bastante interessante na minha timeline do Facebook. Muitos jovens, na casa dos 20 anos, que eram muito pequenos ou nem mesmo tinham nascido quando o original foi lançado, não só estão “amando” (em suas palavras) o musical. Postam que já o viram uma, duas, três vezes, encantados pela exuberância da superprodução dirigida por Bill Condon (de Dreamgirls – Em Busca de um Sonho Deuses e Monstros).

Esse deslumbramento todo se reflete em números: ao redor do mundo, até ontem, A Bela e a Fera havia acumulado, em meros 13 dias de exibição, US$ 711 milhões – só nos Estados Unidos, rendeu US$ 326 milhões, cifra que o colocou no topo da lista dos musicais de maior bilheteria de todos os tempos no mercado norte-americano. Em valores reajustados, ainda fica atrás de Noviça Rebelde (1965), Mary Poppins (1963) e Grease – Nos Tempos da Brilhantina (1978), mas o desempenho é extraordinário. Restringir, no entanto, o filme a esse gênero, que neste ano já viu outro grande revival com o significativo sucesso de público e crítica de La La Land – Cantando Estações, talvez seja um simplificação apressada.

Por trás do êxito de A Bela e a Fera há outros fatores também determinantes, a começar pelo enorme afeto acumulado há mais de 25 anos pela produção original, primeira animação a figurar entre os (então cinco) indicados ao Oscar de melhor filme – vale lembrar aqui que a categoria de melhor longa-metragem de animação ainda não existia. Também deve ter pesado o sucesso de outros remakes de desenhos clássicos da Disney: Malévola (2014), uma nova leitura de A Bela Adormecida; Cinderela (2015) e Mogli: O Menino Lobo (2016). E, por último, mas não menos importante, parece ter sido determinante a escolha, para o papel da protagonista Belle, da jovem atriz britânica Emma Watson. Afinal, ela conta com uma legião de fãs ao redor do planeta, conquistados graças à imensa popularidade dos filmes da franquia Harry Potter, nos quais interpretou a bruxinha Hermione.

A escalação de Emma para interpretar Belle foi um grande acerto. Militante da causa feminista, a estrela inglesa empresta um pouco de sua persona pública à personagem, uma jovem de uma pequena cidade no interior da França do século 18 que, apesar de filha de um humilde relojoeiro (Kevin Kline, vencedor do Oscar por Um Peixe Chamado Wanda) é uma exceção entre as meninas locais. Ama os livros, tem vontades próprias e repele energicamente as investidas amorosas do brutamontes do vilarejo, o musculoso e descerebrado Gaston  (Luke Evans, de A Garota no Trem). Se na animação de 1991, Belle já representava um avanço e tanto para o universo das princesas da Disney, nesta nova versão a personagem, também por conta da atuação de Emma, é uma garota determinada, com iniciativa própria e, apesar de graciosa, não é refém de seus encantos. É uma heroína, e não uma mocinha indefesa.

A escalação de Emma para interpretar Belle foi um grande acerto. Militante da causa feminista, a estrela inglesa empresta um pouco de sua persona pública à personagem…

E é para salvar o pai que ela vai parar nas “garras” da Fera (Dan Stevens, da série Downton Abbey), um príncipe egocêntrico e individualista, transformado em uma espécie de monstro, meio homem meio besta, por uma feiticeira. Só se livrará da maldição se um dia conseguir amar e, principalmente, ser amado. Além do rapaz, a bruxa também transforma seus empregados e agregados em objetos e móveis do castelo. O elenco que vive esses coadjuvantes é extraordinário: Emma Thompson (vencedora do Oscar por O Retorno a Howard’s End) é Mrs. Potts (o bule); Ewan McGregor (de Trainspotting), o candelabro Lumière; Ian McKellan (de O Senhor dos Anéis), o relógio Cogsworth, só para mencionar alguns.

Bastante fiel à animação de 1991, mas também ao musical da Broadway que o sucedeu (e não era grande coisa), A Bela e a Fera não é, de maneira alguma, um filme sutil. Muito pelo contrário. A opção aqui é pelo excesso, pelo arrebatamento visual e emotivo, que vai da direção de arte e figurino aos efeitos especiais, passando, é claro, pelos números musicais, embalados pela potente trilha sonora de Alan Menken. Enche os olhos, e os ouvidos, buscando capturar o espectador pela emoção, o que consegue fazer espantosamente bem para um filme de 129 minutos, cuja trama é tão conhecida, e há tanto tempo. Tanto que rendeu, em 2014, uma irregular versão francesa, estrelada por Vincent Cassel (de Cisne Negro) e Léa Seydoux (de Azul É a Cor Mais Quente), também baseada na história de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (1711-1780).

Se tem alguns problemas de ritmo – a sequência final de ação, quando Gaston tenta matar a Fera é um tanto frustrante -, o romance entre os protagonistas funciona muito bem, arrancando suspiros do público. Vale também citar a presença na trama de LeFou (Josh Gad), melhor amigo de Gaston, e primeiro personagem assumidamente gay em uma produção infantil dos Estúdios Disney.

Com o estrondoso êxito de A Bela e a Fera, já estão confirmadas novas versões de O Rei LeãoMulan e Cruella, protagonizado pela vilã de 101 Dálmatas, vivida por ninguém menos do que Emma Stone, Oscar de melhor atriz por La La Land.

Assista ao trailer de ‘A Bela e a Fera’

A Bela e a Fera

Grande sucesso internacional de bilheteria, o musical 'A Bela e a Fera' faz justiça ao clássico da animação dos Estúdios Disney que lhe deu origem. Apesar de problemas de ritmo, o filme é uma exuberante superprodução que enche os olhos e arrebata em seus melhores momentos.

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Paulo Camargo

Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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