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A teatralidade superficial de ‘Assassinato no Expresso do Oriente’

Nova adaptação para o cinema do clássico de Agatha Christie é bem produzida e tem elenco de estrelas, mas peca por roteiro apressado, que enfraquece a trama original

Assassinato no Expresso do Oriente

Nova adaptação de 'Assassinato no Expresso do Oriente', de Agatha Christie, é bem produzida e tem elenco de estrelas, mas peca por roteiro apressado.

A escritora britânica Agatha Christie (1890-1976) dedicou quase toda a sua extensa obra a criar histórias nas quais pouco ou nada é o que aparenta. Seus milhões de leitores ao redor do mundo pagavam para serem enganados. Como ela tinha uma visão aquilina, crítica da sociedade de aparências em que vivia e de seus jogos de cena, todos seus personagens, inclusive os célebres detetives Hercule Poirot e Miss Marple, eram performáticos e atuavam na vida como se estivessem em um palco, muitas vezes recorrendo à dissimulação. Assassinato no Expresso do Oriente, cuja nova adaptação cinematográfica acaba de estrear nos cinemas, é exemplar nesse sentido. Embora boa parte da história se passe a bordo de um trem, há uma teatralidade que permeia o enredo

Com formação shakespereana, o ator e diretor irlandês Kenneth Branagh (de Henrique V) é uma escolha que faz bastante sentido para levar o romance, entre os mais populares de Christie, pela segunda vez à tela grande. A primeira versão, de 1974, foi assinada pelo grande cineasta norte-americano Sidney Lumet (de Um Dia de Cão) e fez muito sucesso, trazendo Albert Finney no papel do investigador belga Hercule Poirot, vivido agora pelo próprio Branagh. Como já nas páginas dos livros da escritora, o detetive, com seu exuberante bigode, forte sotaque francês e humor peculiar, já é um tanto caricato, a atuação de Branagh é precisa, mas deixa um pouco a desejar. Não surpreendente porque o roteiro de Michael Green (de Blade Runner 2049) é burocrático e não surpreende.

O sucesso de bilheteria de Assassinato no Expresso do Oriente já garantiu uma sequência, anunciada nas cenas finais do filme.

Embora se trate de um best-seller publicado em 1934 e lido por milhões desde então, não acho que seja o caso de entregar aqui detalhes essenciais da trama, já que há muito que desconhecem seu desfecho surpreendente, um dos mais inventivos na obra da autora. Vale contar que boa parte da ação se desenrola a bordo do lendário Expresso do Oriente, jornada ferroviária com início em Istambul, na Turquia, e atravessa o continente europeu, com o desembarque dos últimos passageiros em Londres.

Poirot, a convite de um velho conhecido, embarca no trem cercado de uma fauna diversa e fascinante de passageiros, que como na versão de 1974, é interpretada por um time de grandes estrelas de diferentes gerações: Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Johnny Depp, Penelope Cruz, Derek Jacobi, Willem Dafoe e até Daisy Ridley, a Rey da nova trilogia Star Wars. O problema é que, se no romance, os personagens são bem delineados e suas subtramas vão se entrelaçando de forma menos apressada, nesta adaptação para o cinema, ao contrário da de 1974, o comboio vira um trem-bala, e muito se perde nesse processo de aceleração da narrativa. Há bons momentos, mas o resultado frustra.

Já em continente europeu, cercado de montanhas nevadas, a viagem é interrompida por problemas técnicos e, principalmente, por conta da morte de um dos passageiros: Edward Hatchett (Johnny Depp, em uma interpretação econômica e convincente), um sujeito de caráter duvidoso, já se percebe no pouco tempo em que permanece em cena. Ele é assassinado a facadas e cabe a Poirot desvendar o crime, mistério cuja chave está muito longe dali, mas que, de certa forma, tem a ver com muitos dos que estão a bordo.

Do ponto de vista técnico, o filme é muito bem acabado. Direção de arte e figurinos impecáveis. O onipresente zelo com a embalagem, no entanto, frustra um pouco quando percebemos que a trama, tão bem construída por Agatha Christie, descarrila por excesso de pressa, e falta de profundidade no desenvolvimento dos passageiros/personagens, que mais parecem convidados de um baile à fantasia, tamanha a superficialidade com que são apresentados.

O sucesso de bilheteria de Assassinato no Expresso do Oriente já garantiu uma sequência, anunciada nas cenas finais do filme. Será rodada em breve uma nova adaptação de Morte sobre o Nilo, outro clássico de Christie, cuja primeira versão para o cinema é de 1978 e tinha Peter Ustinov (de Spartacus) como Poirot, papel que mais uma vez caberá a Branagh. A história é ótima. Espera-se que o filme seja melhor que este Assassinato no Expresso do Oriente.

Trailer de ‘Assassinato no Expresso do Oriente’

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Paulo Camargo

Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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