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Mistério, amor e guerra se entrelaçam em ‘Frantz’

Contido, mas dilacerante, 'Frantz', filme do diretor francês François Ozon, toca nas feridas da Primeira Guerra Mundial.

Frantz

Contido, mas dilacerante, 'Frantz', filme do diretor francês François Ozon, toca nas feridas da Primeira Guerra Mundial.

François Ozon é um cineasta que não costuma errar e vem construindo ao longo dos anos uma das filmografias mais interessantes no cinema contemporâneo. O comovente Frantz, em cartaz no circuito brasileiro, é mais um dos muitos acertos do diretor francês de Sob a Areia (2001) e Amor em 5 Tempos (2004), com os quais o longa-metragem compartilha um traço recorrente na obra do cineasta: uma aura de mistério, que se insinua com sutileza, mas sempre como um dos elementos essenciais da trama, muitas vezes construída em torno de personagens femininas fortes.

A trama de Frantz se inicia em uma pequena cidade alemã, depois do término da Primeira Guerra Mundial. Logo na primeira cena, vemos jovem Anna (a revelação Paula Beer) em visita o túmulo do noivo. No cemitério, ela se dá conta de que não é a única a depositar flores sobre a lápide, e a chorar o morto. A presença de Adrien (Pierre Niney, excelente), um rapaz francês, a intriga. Qual seria a ligação dele com Frantz Hoffmeister (Anton von Lucke), personagem que dá título ao longa-metragem e uma espécie de ausente onipresente no enredo.

Refilmagem de Não Matarás (1932), produção norte-americana dirigida pelo alemão Ernst Lubitsch, Frantz é também uma releitura de um texto de teatral do francês Maurice Rostand. A novidade está no fato de Ozon mudar a perspectiva tanto da peça quanto do longa de Lubitsch. Vemos a história através dos olhos de Anna, e não dos de Adrien, que continua desempenhando papel central, mas não é o condutor na narrativa.

Refilmagem de Não Matarás (1932), produção norte-americana dirigida pelo alemão Ernst Lubitsch, Frantz é também uma releitura de um texto de teatral do francês Maurice Rostand.

Um belíssimo filme que fala tanto de amor quanto de guerra, Frantz aborda os dois temas, e os intersecciona, com sutileza. À medida em que se desenha entre Anna, Adrien e Frantz um improvável triângulo amoroso, o roteiro também toca nas feridas ainda abertas pelo confronto entre França e Alemanha. Há muita dor em ambos os lados.

Adrien é visto pelos alemães, derrotados pelas forças aliadas, como inimigo. Ele é hostilizado por quase todos, mas insiste em permanecer na cidadezinha, ao ponto de estabelecer laços com a família de Frantz. Como e por que não cabe aqui revelar. Sua relação com Anna também é ambígua e, durante o filme, se transforma. Essas mudanças são representadas pelas mudanças na fotografia, em preto e branco durante quase toda a trama, simbolizando o clima de pesar e luto pós-Guerra. Em alguns momentos, no entanto, as imagens ganham cor, sugerindo sensualidade, afetividade, que se anunciam, mas não conseguem se estabelecer por completo.

Esse jogo cromático é fascinante e deu a Frantz o César (Oscar do cinema francês) de melhor fotografia, além de ter sido indicado em outras dez categorias, incluindo melhor filme e direção. Paula Beer, por sua atuação recebeu, no Festival de Veneza (2016), o prêmio de atriz revelação.

Assista ao trailer de ‘Frantz’

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Paulo Camargo

Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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