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‘Ícaro” dá um inesperado primeiro Oscar à Netflix

Batendo forte concorrência, o documentário 'Ícaro', de Bryan Fogel, aborda os bastidores da dopagem nos esportes olímpicos da Rússia de Putin.

Ícaro

Batendo forte concorrência, o documentário 'Ícaro', de Bryan Fogel, aborda os bastidores da dopagem nos esportes olímpicos da Rússia de Putin.

Muitos torciam que o belíssimo documentário Visages Villages, da veterana cineasta belga Agnés Varda, saísse vencedor da cerimônia do Oscar no último domingo. Mas quase ninguém esperava que Ícaro ganhasse a estatueta. A produção, comprada pelo serviço de streaming Netflix no Festival de Sundance no ano passado (no qual foi premiada) e já disponível para assinantes no Brasil, não figurava nas listas de favoritos em uma competição especialmente forte neste ano. Ao que tudo indica, o prêmio foi atribuído muito mais pela força da temática (o escândalo da dopagem nos esportes) do que propriamente pelas qualidades cinematográficas do filme, importante pela pertinência, e sobretudo porque seu realizador, o diretor e ciclista amador Bryan Fogel, teve a sorte de estar no lugar certo, na hora certa.

O roteiro de Ícaro nasceu com um questionamento em torno de Lance Armstrong, chamado de “o maior ciclista de todos os tempos” pelas sete vitórias consecutivas que obteve no lendário Tour de France após superar um câncer. Ele perdeu todos os títulos ao confessar o uso constante de substâncias proibidas. Ninguém imaginava que isso fosse possível e um dos maiores heróis do esporte norte-americano despencou do olimpo. Fogel, intrigado por Lance nunca ter sido reprovado em testes antidoping, decidiu colocar o obviamente falho sistema à prova. Como é também ciclista, resolveu ser a cobaia do experimento e o protagonista de Ícaro.

Em um primeiro momento, Fogel se propõe a um papel parecido de Morgan Spulock em Super Size Me – A Dieta do Palhaço (2004), também indicado ao Oscar. Pretende registrar sua jornada em uma espécie de vlog sem maiores ambições estéticas cinematográficas. Quando quem deveria ser seu guia no processo de dopagem nos Estados Unidos desiste de contribuir, Fogel dá um passo definitivo que alteraria, mais tarde, a rota de seu projeto em definitivo: contata o químico russo Grigori Rodchenkov, que rapidamente lhe rouba o protagonismo no filme. Rodchenkov é o diretor de laboratório credenciado pela WADA (Agência Mundial Antidoping) em Moscou e, portanto, tem todo o conhecimento do mundo quando assunto é doping, mas o que acaba fazendo toda a diferença é seu inacreditável carisma diante das câmeras. O filme, literalmente, se torna dele, aos poucos

Fogel conquista a confiança do russo, que lhe oferece, quase de mão beijada, informações privilegiadas e aceita supervisionar o seu projeto de provar que pode se tornar um atleta de alta performance com o uso de drogas sem ser descoberto. A realidade, no entanto, os atropela. Um documentário alemão denuncia um enorme esquema de doping russo e Rodchenkov vira personagem central do escândalo, que dele pode fazer um inimigo público em seu país se ele revelar seus segredos. E é exatamente o que ele faz. Fogel, portanto, foi beneficiado pelo acaso.

Fogel, enfim, tem todo o mérito de estar no lugar certo na hora certa e é por isso que ganhou o Oscar.

O projeto inicial do cineasta ciclista se transfigura, até se desmanchar em frente da câmera, e o diretor acaba assumindo outras funções, que vão desde entrevistar Grigory, para levar ao mundo tudo o que sabe, até protegê-lo, o mantendo são e salvo do governo Putin. As denúncias do russo datam desde os tempos da União Soviética e têm implicações que transcendem o esporte e adentram a geopolítica. É interessante observar como Bryan não se furta de permitir que o filme mostre sua perplexidade diante das dimensões que o caso toma.

O que era para ser um documentário investigativo, porém muito pessoal, ganha proporções gigantescas e o diretor, antes personagem central, torna-se um coadjuvante e ele visivelmente se abala com isso. Esse processo é muito interessante de ser observado, ainda que seja evidente sua inexperiência como realizador.

De certa forma, portanto, o título Ícaro, uma referência ao mito grego do homem que criou asas com penas e cera para alçar voo e acaba despencando dos céus, vale tanto para Grigory quanto para Fogel. Ambos esfacelam-se, desconstroem-se, fraturam-se. Entram em queda livre. Por diferentes razões. Um por querer fazer um filme que nunca acontece e perde o rumo e vai parar nas mãos de quem julgava ter controle sobre a própria vida e também é obrigado deixar tudo para trás, ironicamente buscando refúgio no filme, do qual é um herói bandido.

Confuso formalmente, e misturando várias estéticas, Ícaro funciona melhor se pensado como uma obra com a urgência de um filme-denúncia, mais pelo que revela do que exatamente pela forma como isso é narrado. Fogel, enfim, tem todo o mérito de estar no lugar certo na hora certa e é por isso que ganhou o Oscar.

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Paulo Camargo

Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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