COMPARTILHE
Jogo das Decapitações
Em um tom irônico e sarcástico, típico da sua própria linguagem cinematográfica, Sérgio Bianchi desmascara a situação da anistia de crimes na ditadura militar (Imagem: Divulgação)

“Os estereótipos são as imagens dominantes de uma época, as imagens do espetáculo dominante. […] A repetição de uma atitude cria um papel, a repetição de um papel cria um estereótipo”. A citação do sociólogo belga Raoul Vaneigem em seu renomado livro A arte de viver para as novas gerações talvez defina uma das principais matizes do fazer cinematográfico de Sérgio Bianchi.

A capacidade de se transformar num olhar crítico da situação da sociedade brasileira é inegável no cinema de Bianchi, vide os filmes Cronicamente Inviável (2000) e Quanto Vale ou é por Quilo? (2005). O que talvez não seja defensável em sua obra é a construção de estereótipos bastante demarcados e monocromáticos, sempre trabalhando narrativas de maneira maniqueísta, embora profundamente crítica.

Em Jogo das Decapitações (2013), Bianchi trabalha com base em uma trama que é recorrente no cinema brasileiro: a ditadura militar. O mestrando Leandro (Fernando Alves Pinto), que pesquisa organizações de esquerda em tempos de mordaça ideológica, descobre que seu pai, Jairo Mendes (Paulo César Pereio), um cineasta bastante controverso e criticado por expor opiniões cabeludas em suas obras, foi morto em uma rebelião presidiária no interior de São Paulo.

Por outro lado, a mãe de Leandro (Clarice Abujamra), uma ex-militante de esquerda, está prestes a receber uma indenização do Estado por ter sido presa e torturada durante o período da ditadura. Neste ínterim, Leandro acaba descobrindo um longa produzido por seu pai chamado Jogo das Decapitações – que, na verdade, são imagens do primeiro filme de Bianchi, Maldita Coincidência (1979), uma história que se passava num casarão abandonado em São Paulo com junkies que se recusavam a tirar o lixo de dentro dele.

Uma pessoa que assiste a Jogo das Decapitações sem uma ampla perspectiva histórica do que está sendo tratado corre o risco de perder o fio da meada.

O estudante, então, vagueia entre as duas ideologias – a da mãe, típica de uma esquerda tradicional que não consegue se adaptar ao mundo contemporâneo, e a do pai, a do desbunde e do anarquismo sem perspectivas de luta. Além disso, o jovem também acaba se deparando com as ideias de um colega de mestrado (Silvio Guindane), que critica veementemente todo e qualquer tipo de militância, seja a do ambiente acadêmico, a marxista, e aquela de manifestações em formato de cirandas em ocupações.

É impossível não notar que ambas as personalidades, tanto a do pai de Leandro, o cineasta Jairo Mendes, e a de seu colega, são uma espécie de autoconsciência do próprio Sérgio Bianchi, em seu desejo de criticar todas as segmentações de uma esquerda acomodada.

Cena de O Jogo das Decapitações
O amigo de Leandro no mestrado acaba sendo um porta-voz das denúncias do diretor no filme. Foto: Divulgação

Não obstante, o filme foi produzido em um momento muito específico da política nacional. Assim como Cronicamente Inviável foi produzido como uma tentativa de criticar o neoliberalismo do governo de Fernando Henrique Cardoso, Jogo das Decapitações se passa em um momento muito específico do primeiro mandato do governo Dilma, em que eram discutidas as prescrições quanto à anistia de crimes perpetuados em tempos de ditadura militar.

Apesar de Bianchi ser um ótimo diretor na hora de pautar esse tema em um longa-metragem, a abordagem ainda é rasa – seja devido à proximidade histórica do tema em questão, seja pelo fato de que os personagens do filme são, em sua maioria, caricaturais. Ainda por cima, uma pessoa que assiste ao filme sem uma ampla perspectiva histórica do que está sendo tratado corre o risco de perder o fio da meada em meio a tantas questões levantadas ao longo da narrativa.

link para a página do facebook do portal de jornalismo cultural a escotilha

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA