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la vingança
Foto: Divulgação.

Por um lado, La Vingança tem o grande mérito de nos levar enquanto plateia a um outro país da América do Sul, no caso, a Argentina. É algo raro no cinema brasileiro, embora não único. Dessa forma, o filme nos faz vivenciar, mesmo que minimamente, aquela geografia, cultura, língua e sotaque. Por outro lado, o longa-metragem de Fernando Fraiha o faz ancorado em muito machismo e preconceito ao estrangeiro.

No enredo, Caco e Vadão são amigos inseparáveis e improváveis. Caco, interpretado por Felipe Rocha, é um dublê canastrão de cinema. Ele está com problemas com sua namorada e, na tentativa de resolvê-los, decide pedi-la em casamento. Faz uma surpresa levando flores ao seu trabalho. Lá, contudo, encontra-a transando com Facundo, um chefe de cozinha argentino, bem-sucedido e famoso. Vadão (Daniel Furlan) assume o papel do amigo todo ouvidos e o leva para encher a cara. De porre, ambos decidem ir até a Argentina para se vingar de Julia, a namorada. O plano é “pegar” (sic) o maior número de argentinas que conseguirem. Mas o que Caco esconde de Vadão é que, na verdade, ele sabe que a ex-namorada viajou para Buenos Aires na companhia do novo namorado. A viagem é feita a partir de São Paulo, em um Opala da década de 1970, o carro xodó de Vadão.

Assentado nos alicerces da comédia, o roteiro de La Vingança foi escrito buscando qualquer brecha possível para fazer rir.

Assentado nos alicerces da comédia, o roteiro de La Vingança foi escrito buscando qualquer brecha possível para fazer rir. Escrito por quatro roteiristas, o filme reiteradamente lança mão de piadas machistas ou misóginas para tentar agradar a plateia. Quando não, atiram em outro grande clichê humorístico nacional: a rivalidade do Brasil com a Argentina. São com essas duas frentes cômicas que Fernando Fraiha tenta conduzir os noventa minutos de projeção.

Para ser justo, há uma envergonhada tentativa de fazer com que o filme não pareça assim tão machista. Os próprios personagens debatem o assunto e acusam Vadão, em diversos momentos, de ser imaturo e mesmo de não respeitar o sentimento das mulheres. Mas acontece que Vadão é o personagem cômico, é ele que faria, a priori, a história mais leve. Caco é um deprimido e chato, um “boludo”, como se diz na Argentina. Assim, existe um grande desequilíbrio entre os dois personagens. Por mais que seja Caco quem fará a narrativa andar – pois é dele a função de personagem dramático, é ele quem terá que resolver suas questões – é Vadão quem com certo magnetismo chama para si a atenção na grande parte das cenas.

Há, certamente, ainda algumas sequências que tentam equilibrar a visão e missão sexista dos protagonistas, mas que no final não suplantam todo o preconceito emanado a 24 quadros por segundo. Quando chegam na fronteira com a Argentina, por exemplo, são recebidos por uma mulher, uma soldada. Por mais que Caco ache um absurdo, Vadão dá em cima dela da forma mais pernóstica possível. E embora os amigos se deem mal com a situação, nada muda de fato. Além disso, como seria de se esperar de uma obra que faz ode ao machismo, a vingança dos guardas da fronteira é em serem mais machistas ainda com os dois brasileiros.

Formalmente, La Vingança é um road-movie. O filme também está próximo de uma comédia romântica, dessas que terminam com a mocinha quase embarcando no avião. Embora aqui haja algumas pequenas transformações do gênero (quem quase embarca no avião é o mocinho, por exemplo), a fórmula-base é a mesma. Temos, então, um personagem masculino heterossexual e triste porque perdeu o seu amor (de quem nem gostava tanto assim). Ele fará de tudo para tê-la de volta, mas no fim perceberá que esse esforço todo nem valeu a pena, que encantadora mesma é aquela outra garota que ele achava um saco, uma “boluda”.

Um ponto alto são as atuações. Não há um ator que não corresponda, que não tenha química em cena, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes. A rápida aparição de Leandra Leal como Júlia dá ainda mais credibilidade ao time de atores.

Assista ao trailer de ‘La Vingança’

REVIEW GERAL
La Vingança
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Aristeu Araújo é cineasta, jornalista e crítico de cinema. Dirigiu sete curtas-metragens, dentre eles os filmes “Naquela Noite Ele Sonhou com Um Mar Azul”, exibido nos festivais de Brasília e Havana, e “Com Todo Amor de que Disponho”, que recebeu Menção Honrosa no Tlanchana Fest, na cidade do México, em competição com outros duzentos curtas de ficção. Como crítico de cinema, foi editor da Revista Moviola entre 2007 e 2013, site que também fundou. Estudou Cinema na Universidade Federal Fluminense e atuou como curador de dezenas de mostras e festivais.

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