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Hugh Jackman vive um Wolverine envelhecido. Foto: Divulgação.

Logan está sendo vendido mundo afora como a última aparição de Hugh Jackman na pele de Wolverine. Se de fato será sua última participação em um filme da série X-men, só o tempo dirá, já que Hollywood costuma quebrar reiteradamente suas promessas quando o assunto é dinheiro e franquias. E X-men é um dos produtos mais rentáveis do cinema norte-americano. Ao longo dos últimos 17 anos, foram dez filmes, quase todos com a presença de Jackman. Para se ter ideia da dimensão do negócio, só este último custou US$ 127 milhões. X-men Apocalipse, lançado ano passado, custou U$ 178 milhões. O recorde, contudo, é de X-men: O Confronto Final, de 2006, e seus impressionantes U$ 210 milhões.

Mesmo com um histórico de receitas com lucros em torno de três a quatro vezes o valor investido, é de estranhar que um filme com gastos tão altos tenha apostado em uma plateia mais adulta. Nos Estados Unidos, Logan foi aos cinemas recomendado para maiores de 17 anos. De fato, não é um filme para expectadores tão mais jovens. Chamou a atenção da crítica internacional a quantidade de fuck que é falada por vilões e mocinhos. Aliás, fuck (ou “merda”, como é costumeiramente mal traduzido nas legendas brasileiras) é a primeira palavra dita por Wolverine nessa história de nada menos que 137 minutos. É que o público americano é especialmente sensível a palavrões. Além das palavras e expressões agressivas a ouvidos mais singelos, Logan contém extensas sequências de violência desenfreada, com direito a decapitações e esquartejamentos (lembrar que a arma de Wolverine são suas afiadas garras de adamantium).

Mas vamos para o início. Para quem provavelmente estava em Marte e não sabe do que se trata, X-men é uma série de super-heróis publicada originalmente em histórias em quadrinhos e criada pela dupla Stan Lee e Jack Kirby. Stan Lee, que trabalhou para a editora Marvel, foi o criador de diversos heróis, tais como Incrível Hulk, Homem de Ferro, Thor, Demolidor, Doutor Estranho e Homem-Aranha, além de muitos outros (curiosamente, Wolverine não foi criado por Lee). Dentro do universo X-men há uma infinidade de heróis, sendo alguns dos principais o próprio Wolverine, Professor Xavier, Ciclope, Vampira, Tempestade, Magneto e Mística. Os X-men são pessoas que nasceram com algum poder especial, ou para seus detratores, uma anomalia e potencial risco à sociedade. Stan Lee os criou na década de 1960, uma clara metáfora sobre as lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Martin Luther King, por exemplo, foi assassinado em 1968 justamente pela sua atuação como ativista contra a segregação e o racismo.

Na gênese dos X-men, Professor Xavier criou uma instituição para abrigar e treinar esses mutantes, já que sofriam perseguição e, em geral, não sabiam controlar seus poderes. Xavier, que é paraplégico, é o mais poderoso. Sua mente é capaz de telepatia, telecinese e outras mil funções psíquicas. Wolverine tem uma incrível capacidade de regeneração. Seu envelhecimento é extremamente lento, o que faz com ninguém saiba ao certo quando nasceu. James Howlett, ou Logan, como Wolverine é também conhecido, foi submetido a experimentos do governo onde trocaram seu esqueleto por um de adamantium, uma fictícia liga de metal, a mais resistente em todo o planeta. Daí as suas garras.

Dafne Keen Wolverine logan
Dafne Keen interpreta Laura, a misteriosa criança que Wolverine terá que proteger. Foto: Divulgação.

Mas agora neste último filme, Wolverine está envelhecido. A narrativa se passa em 2029 e vemos um mundo em que praticamente não há mais mutantes. Pelo o que sabemos, sobraram ainda um nonagenário Professor Xavier e Caliban (um mutante das antigas e, agora, cuidador do idoso professor). Logan ganha a vida como motorista de limusine e ajuda Xavier com algum dinheiro e medicamentos, já que com a idade, o professor desenvolveu uma doença degenerativa (uma espécie de demência). Sem os remédios, Xavier se transforma em um potencial perigo, pois ele perde controle sobre seus poderes. A premissa da história é simples, como são simples as forças binárias que agem sobre os super-heróis. Wolverine, velho e cansado, se ressente de todas as mortes e dores que causou. Por isso, renega o passado e se afunda no alcoolismo. Mas o destino o faz conhecer uma enfermeira que tenta de toda forma proteger uma criança. Logo saberemos que essa criança, Laura, tem poderes muito semelhantes aos de Logan. E, claro, o governo está atrás de todo mundo para prender ou matar.

Mas agora neste último filme, Wolverine está envelhecido. A narrativa se passa em 2029 e vemos um mundo em que praticamente não há mais mutantes.

Para reforçar esse dualismo entre ser violento e não o querer, há uma sequência em que o Professor Xavier assiste em um quarto de hotel ao filme Os Brutos Também Amam, clássico Western dirigido por George Stevens em 1954. É um espelho, já que naquele filme, há também a história de um matador que na velhice tenta se desviar de todo aquele mal, mas que acaba tendo que voltar à velha forma impingido por forças maiores do que ele próprio. Logan também funciona, em parte, como um filme de Velho Oeste, pois além de suas paisagens desérticas, há temas que lhes são caros, tais como estado de direto versus a lei do mais forte, manutenção de terras, a família como núcleo fundamental e civilizador, desumanização do outro (índios para o Western clássico, mutantes para este). Mad Max e seu mundo pós-apocalíptico é, ele também, uma referência das mais óbvias.

O herói que nega ou tenta negar o uso da força letal é recorrente no universo dos super-heróis (Batman, Demolidor, Super-Homem etc). O que não é tão comum é essa mudança de paradigma, a transição entre um personagem que tem como característica maior o uso da força extrema para outra totalmente diferente. De toda forma, muito embora o filme pareça querer debater o assunto, pouco se aprofunda na questão. A direção de James Mangold (também co-roteirista) não dá tempo ao personagem ou ao expectador para pensar. Seguindo os genes dos filmes de ação, as peripécias aqui se sobrepõem e Wolverine ou mata ou morre.

O melhor deste Logan é, sem sombra de dúvidas, a decadência explícita dos velhos heróis e seus ideais. Patrick Stewart está brilhante como o Xavier ancião. Seus diálogos são via de regra desconcertantes, porque nos mostram apenas que o que ele quer é viver em paz, em um mundo em que isso não é possível. Hoje, em 2017, já sabemos o quão ele está certo, vide toda a intolerância que está paulatinamente ganhando as mentes e os palanques do mundo.

Logan traz consigo diversos vícios incontornáveis dos blockbusters americanos (viradas previsíveis, violões esquemáticos) . Mesmo assim, consegue ser um filme de super-herói acima da média. Sobretudo porque soube colar na figura do seu protagonista a agonia pela qual nossas utopias contemporâneas estão passando. Do mesmo modo, há uma construção de redenção que conversa com  nossa ansiedade, pois para nós e os X-men, a esperança de dias melhores pode estar nas mãos das novas gerações.

Assista ao trailer de ‘Logan’

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