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Lourinelson Vladmir, o ator que não queria mentir para si mesmo

Lourinelson Vladmir por Paulo de Siqueira, especial para A Escotilha.

Por Paulo de Siqueira, especial para A Escotilha

Em 1985, na pequena cidade de Maravilha, oeste catarinense, as pessoas formavam fila para entrar no teatro mambembe que lá tinha se instalado. O palco era uma carroceria de caminhão com as laterais dobradas, coberta por uma lona. Entre os espectadores, havia um jovem muito ansioso para assistir às apresentações daquela noite: era Lourinelson Vladmir, que já tinha visto quatro das seis peças da companhia. Sua meta era ver todas e revê-las, e revê-las outra vez…

“Foi ali que eu descobri o teatro. Era muito divertido. Quando eles foram embora foi uma tristeza” — lembra o menino Louri, 29 anos depois.

Ainda em Maravilha, seu primeiro personagem foi João Grilo em O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Na noite de estreia, o ator esqueceu de levar a faca com que assassinaria Chicó. Catou uma tesoura que encontrara nos bastidores e entrou com ela no palco.

“— Se eu não tenho faca, vou te matar com uma tesoura mesmo!!!”.

Quem viu a cena, não esquece. “Quase três décadas depois, eu lembro daquele momento como se fosse hoje. Eu achei que o João Grilo tinha matado mesmo o Chicó. Era ‘sangue’ para todo o lado, foi muito engraçado” — comenta Maurício Leonhart, que assistiu à apresentação quando tinha quatro anos.

A espontaneidade e a liberdade de criar e recriar eram o espírito do teatro. Lourinelson tinha capturado essa grande verdade com os mambembes. A compreensão ficou ainda mais clara quando viu, no final de seu primeiro trabalho, o frenético furor do público que aplaudia, gritava, assobiava e ria. Naquele dia, ele entendeu a essência da arte de interpretar: divertir-se para divertir.

Vladmir saiu de cena por dez anos. Não pensava em ser ator e, como público, via algo de engessado na arte de interpretar. Achava que os atores tinham preocupações demais e, do palco, vinha muito pouco do vivo e vibrante que para ele era o teatro.

“Para mim, foi muito importante ter visto a carpintaria do teatro mambembe em Maravilha e, depois, ter feito O Auto da Compadecida. Era tudo muito tranquilo. Não tinha grande mistério. Essas duas experiências mostraram que o teatro é uma coisa popular, comum. Não tem grandes ritos.”

Em 1991, o ator passou em Direito na UFPR e voltou para Curitiba, sua cidade natal. Logo que chegou, foi assistir a uma peça. Não gostou. Assistiu a outra e também não gostou, mais uma e, de novo, saiu com a sensação de que algo faltava naquelas apresentações. “Durante muitos anos em Curitiba eu fui perdendo o gosto pelo teatro. Em geral, era decepcionante. Eu sabia que podia ser bom, mas me incomodava muito quando não era. Desse incômodo nasceu meu interesse para entender o que faz um bom ou um mau ator”, comenta.

Sim, Vladimir saiu de cena por dez anos. Não pensava em ser ator e, como público, via algo de engessado na arte de interpretar. Achava que os atores tinham preocupações demais e, do palco, vinha muito pouco do vivo e vibrante que para ele era o teatro.

Em 1996, começou a formular hipóteses, teorias, exercícios que viabilizassem uma presença segura, tranquila e verdadeira do ator em cena. Decidiu ser cobaia de si mesmo. Todas as noites interpretava, diante de uma câmera de vídeo, o conto de Kafka “Relatório a uma Academia”. Gravava tudo o que fazia e depois assistia. “Naquela época, queria entender e eliminar a vaidade do ator. Era uma das coisas que mais me irritava nos espetáculos: atores interpretando pra si mesmos, como se estivessem diante de um espelho. Depois fui percebendo que isso é só um sintoma, aliás, um sintoma da cultura; veja a atual moda selfie: ao invés de você viver a experiência presente do mundo você fica produzindo imagens de você mesmo com o mundo de fundo. Então, a questão era — e é! — interpretar o texto da maneira mais presente e não representá-lo, mas presentificá-lo. Quando eu via os resultados dos vídeos das minhas experiências, muitas vezes eu dizia pra mim mesmo: mentindo!!!”.

Um dia, parou de mentir e entendeu a verdade cênica. Foi nesse momento que um amigo o convenceu que teatro não se faz para as paredes. Que ele deveria apresentar para o público. Ele apresentou.

O estudo sobre o método de formação de atores trouxe novamente a naturalidade que o advogado artista havia presenciado no teatro mambembe em Maravilha, a espontaneidade que sentiu ao fazer a peça O Auto da Compadecida. Essa não-falsidade cênica lhe garantiu o candango de melhor ator coadjuvante no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2015. Porém, ele sempre lembra que tudo começou numa pequena cidade chamada Maravilha.

 

Paulo de Siqueira é jornalista e fotógrafo. Atuou como editor, redator e repórter de revista digital. Escreveu o livro Os Medalhistas, publicado na Amazon.com. Atualmente é coordenador de agência de comunicação e pesquisador de temas que envolvem comunicação, religiosidade, preconceitos e estereótipos.

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