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As sutilezas de se estar longe de casa em ‘A cidade onde envelheço’

Com um importante protagonismo feminino tanto na direção quanto no elenco, 'A cidade onde envelheço', primeiro filme de ficção de Marília Rocha, ganhador do 49° Festival de Brasília, retrata com delicadeza as dores e as delícias de se morar longe da terra natal.

“Como se torna difícil explicar as coisas quando a liberdade instala em nós seu reino de incertezas. Agora, eu preciso distinguir cada céu, conseguir de cada uma a intimidade singular; de cada vento, devo arrancar o segredo, a confidência; de cada alegria, é preciso que eu estabeleça os limites, organizando as paisagens que a compõem, que lembranças me vivem na alma, que tonalidade de luz me cerca, que momentos de tédio ou ansiedade precederam o prazer de colecionar conhecimentos”. Assim é um dos trechos da carta do cronista Paulo Mendes Campos ao escritor Otto Lara Rezende, se referindo à estranheza de estar fora do seu próprio lar, em Belo Horizonte, quando mudou-se para o Rio de Janeiro.

Não à toa, esse excerto é lido por Teresa (Elizabete Francisca), uma jovem portuguesa que acaba de chegar em Belo Horizonte para visitar sua amiga e conterrânea, Francisca (Francisca Manuel). É assim, sob esse roteiro simples, que se passa a história do filme A cidade onde envelheço (2016), o primeiro longa-metragem de ficção de Marília Rocha, que já havia dirigido os documentários Aboio (2005), Acácio (2008) e A falta que me faz (2009).

Apesar de ser a sua primeira experiência com o ramo ficcional, a diretora não deixa de longe suas raízes – o filme é todo passado numa espécie de catálogo documental, com cenas em que as personagens apresentam uma fluidez bastante característica do gênero. No mais, as próprias jovens nunca haviam sequer atuado antes, deixando o longa ainda mais verossímil com a situação.

Um filme que merece atenção, especialmente pelo protagonismo feminino na direção e no elenco.

Há, nas duas personagens, características muito distintas que as diferem uma da outra, não necessariamente por suas personalidades, mas talvez pela situação pela qual estavam passando. Enquanto Teresa é mais vívida e se entrega à condição de recém-chegada de maneira passional, Francisca é mais racional e estável, ao ponto de ser considerada monótona. A primeira prefere viver as aventuras nas terras novas, inclusive traçando relacionamentos com pessoas pouco previsíveis, enquanto a segunda, já com um relacionamento aparentemente regular, fica presa à rotina do cotidiano.

Em certos momentos do filme, além disso, se tem a impressão de que a qualquer momento as duas amigas terão uma desavença por conta dessas diferenças, como em Frances Ha, de Noah Baumbach. Porém o roteiro continua, e a amizade também. O verdadeiro ponto de flexão do filme se passa quando Francisca decide, abruptamente, volta a Lisboa, enquanto que a amiga prefere continuar vivendo as aventuras de morar longe de casa.

É neste instante crucial que o filme passa a tomar um rumo que já se havia previsto desde o início: enquanto uma amiga fica a espera da volta para sua terra natal, a outra tem de decidir o que fazer da vida. Embora o final do filme não traga resoluções para ambas, é notável que o caminho traçado tanto por Teresa quanto por Francisca, embora distinto, era o que realmente iria satisfazer seus desejos interiores.

Marília trabalha no filme com certas sutilezas que o tornam ainda mais belo. Uma das cenas mais marcantes é quando Francisca vai comprar um disco de Caetano Veloso ao seu amigo e amante de longa data, como forma de despedida. Ela, então, é interrompida pelo vendedor que a indica um disco de Jards Macalé e a batida de “Soluços” toma conta da cena: “Quando você me encontrar/ Não fale comigo, não olhe pra mim/ Eu posso chorar”.

Toda essa tristeza que toma conta de Francisca ao longo do filme e que a faz irremediavelmente voltar para casa também encontra Teresa quando a amiga se despede e ela dá início ao “capítulo 2” da sua jornada: morar sozinha em lugar desconhecido.

Francisca decide até mesmo terminar seu relacionamento estável no Brasil para voltar para casa, em Portugal. Foto: Reprodução.

Mesmo que este não seja necessariamente o ponto principal de reflexão do filme, é impossível não notar um certo momento de melancolia por conta da passagem à maturidade das duas personagens. Tanto que, em determinado momento, Teresa questiona a amiga: “Por acaso você é rica? Seus pais pagam seu aluguel?”, enquanto procurava um apartamento para morar sozinha no centro da cidade. Outro ponto forte do filme são as cenas do centro da cidade de Belo Horizonte, inclusive dos próprios arredores do prédio onde Francisca morava, o Vila Rica, recheado de comércios com uma densidade tipicamente brasileira.

A cidade onde envelheço é um filme rico de sutilezas e ensaios sobre morar longe da sua terra natal. A empolgação do início e a inevitável nostalgia no final, duas resoluções contempladas no filme de Marília Rocha de maneira esplêndida e bastante jovial. Com certeza um filme que merece muita atenção, especialmente pelo protagonismo feminino na direção e no elenco.

Assista ao trailer de ‘A cidade onde envelheço’

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Valsui Júnior

Valsui Júnior nasceu em Manaus/AM, mas vive desde a infância em Curitiba/PR. É um jornalista em formação pela Universidade Federal do Paraná, mas desde cedo sempre flertou com a crítica audiovisual – em especial do cinema brasileiro. É um verdadeiro amante de arte e cultura em geral.

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