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‘Noite Vazia’ e a solidão da cidade grande

O longa de Walter Hugo Khouri mostra um cinema alheio ao engajamento do período por representar as angústias existenciais da classe média alta em São Paulo.

Se por um lado os anos 60 são marcados por um cinema brasileiro muito distinto, com uma vertente social bastante aprofundada, por outro é nessa mesma época que a produção audiovisual ainda engatinhava na busca de uma estética que a definisse. Noite vazia (1964), do paulista Walter Hugo Khouri, define com precisão esse período. Com uma estética impecável, que muito lembra os filmes do italiano Michelangelo Antonioni em sua famosa trilogia da incomunicabilidade – A aventura (1960),  A noite (1961) e O eclipse (1962) -, o filme, que na época foi produzido pela Vera Cruz, chegou a receber várias críticas, uma vez que não tratava necessariamente de uma crítica social, como a maior parte dos longas produzidos neste período.

Noite vazia trata de um recorte bastante específico da sociedade: a classe média alta paulista em suas angústias e a absurdez existencial provocada pela cidade grande. A narrativa se passa numa São Paulo (já tumultuada e caótica, assim como qualquer metrópole mundial) de 5 milhões de habitantes. Dois amigos, Luisinho e Nelson (interpretados por Mario Benvetutti e o ator internacional Gabriele Tinti, respectivamente), sendo um deles casado e proveniente de uma família rica, resolvem “cair na noite” em busca de aventuras e prazeres diferentes. É nesse contexto que acabam encontrando as prostitutas Mara (interpretada por Norma Bengell que, dois anos antes, havia participado do icônico O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte) e Cristina (aqui interpretada pela bela e cativante Odete Lara).

cenas de noite vazia
Os amigos Luisinho e Nelson, os dois “burgueses”, como eram chamados na época, representam a classe média alta. Foto: Reprodução.

Khouri tem seus créditos por fazer um cinema de qualidade e bastante reflexivo.

O que seria apenas mais uma noite na busca de prazeres se torna frustrando todos os envolvidos por conta de conversas e atitudes que revelam o vazio existencial de cada um dos quatro personagens. Enquanto Luisinho e Cristina encontram um no outro uma maior afinidade devido às suas personalidades pragmáticas (acostumados com a mercantilização do sexo e com o vazio da situação), Nelson e Mara começam a ficar bastante desconfortáveis. “Quem vai pensar em mim quando eu estiver velha e podre?”, confessa Cristina a Luisinho, sendo que este responde: “Não vou falar nisso. Não sou título de previdência!”. É dentro deste cenário fechado que a narrativa acontece, entre conversas angustiantes e silêncios constrangedores.

Lá fora, a cidade continua acordada. Khouri trabalha muito bem neste sentido, mostrando planos em que aparecem os faróis de carros e as luzes nos prédios e nas ruas. Há uma ligação bastante forte do cinema de Walter com o de Luiz Sergio Person, que um ano depois filmaria São Paulo, sociedade anônima (1965). Os dois longa-metragens retratam a absurdez existencial que é provocada pela cidade grande, especialmente para indivíduos abastados materialmente, porém, com bastante lacunas a serem resolvidas no quesito emocional. O filme também lembra a temática de Os cafajestes (1962), de Ruy Guerra, apesar de este último ser ambientado no Rio de Janeiro e possuir na narrativa o componente da “malandragem carioca”.

odete lara em noite vazia
A estonteante beleza de Cristina, interpretada por Odete Lara, que se questiona no filme o que será dela quando envelhecer. Foto: Reprodução.

É importante contextualizar também que o filme foi produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, uma empresa paulista que estava à beira da falência por conta dos altos investimentos em suas produções e pouco retorno do público. De fato, a empresa tinha o legado de primor nas suas produções, especialmente por ser criada por Alberto Cavalcanti – e Noite vazia bebia bastante dessa maestria em sua produção. O filme chegou a concorrer em Cannes no ano seguinte, em 1965, porém, não venceu.

Atualmente no cinema brasileiro, há pouco do legado de Khouri em tratar as angústias existenciais de forma tão profunda como no filme, prezando pelos silêncios e por closes bastante expressivos. Um filme recente que talvez dialogue bem com essa temática é o BR 716 (2016), de Domingos de Oliveira, que, apesar de ser ambientado no Rio de Janeiro, mostra a outra face da vida boêmia nos idos dos anos 60, deixando um pouco de lado as agruras da ditadura. Apesar de toda a crítica em torno do filme seja pelo fato de ele ser alienado ao contexto que o país estava prestes a desembocar, Khouri tem seus créditos por fazer uma cinema com qualidade e, ainda assim, bastante reflexivo.

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Valsui Júnior

Valsui Júnior nasceu em Manaus/AM, mas vive desde a infância em Curitiba/PR. É um jornalista em formação pela Universidade Federal do Paraná, mas desde cedo sempre flertou com a crítica audiovisual – em especial do cinema brasileiro. É um verdadeiro amante de arte e cultura em geral.

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