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Jake Gyllenhaal O Abutre
Jake Gyllenhaal em um desempenho corajosíssimo. Foto: Divulgação.

A leitura mais simplista que pode ser feita de O Abutre é que o intenso longa-metragem de estreia de Dan Gilroy é uma crítica corrosiva do jornalismo sensacionalista. Não deixa de sê-lo, mas o filme vai bem além do mero comentário sobre a atual banalização de violência nos veículos de comunicação de massa, que tudo fazem para conquistar audiência.

A potência de O Abutre, ao meu ver, vem muito mais da jornada delirante empreendida pelo protagonista, Lou Bloom (Jake Gyllenhaal, em um desempenho corajosíssimo), um sujeito à margem do (ilusório) “sonho americano”. Ele não mede esforços para conquistar fama, fortuna e reconhecimento.

Para isso, assume um papel parasitário, alimentando-se do mundo-cão, ao qual é patologicamente indiferente. Nele, enxerga a oportunidade de se descolar da invisibilidade, tornando-se um cinegrafista freelancer, que mercantiliza a tragédia alheia. Sobretudo se as vítimas forem brancas e mais abastadas.

As falas do personagem são um dos trunfos de O Abutre, assim como a intimidade com a qual a câmera se apropria da perspectiva alucinada do protagonista, nos tornando um pouco cúmplices de seus pecados.

O engenhoso roteiro de Gilroy (irmão do cineasta Tony Gilroy, de Conduta de Risco) aos poucos nos deixa penetrar na subjetividade alterada de Bloom, cuja obsessão por emergir-do anonimato, e se tornar “um vencedor”, é traduzida em verborragia e petulância oportunista – as falas do personagem são um dos trunfos de O Abutre, assim como a intimidade com a qual a câmera se apropria da perspectiva alucinada do protagonista, nos tornando um pouco cúmplices de seus pecados.

Gyllenhaal, indicado ao Globo de Ouro de melhor ator, e Rene Russo (ex-mulher de Gilroy fora das telas), no papel de uma editora de tevê decadente e sedenta por pontos de audiência, brilham em um filme original, vigoroso.

Assista ao trailer de ‘O Abutre’ na íntegra

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Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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