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Premiado, João Paulo Miranda busca a beleza do interior de suas produções

Trocando em Miúdos: Por dois anos consecutivos, João Paulo Miranda Maria levou o nome de Rio Claro (SP) para a França e venceu o prêmio de Melhor Curta-metragem por voto popular no 5º Olhar de Cinema, em Curitiba.

Por Fernando Garcel*, especial para A Escotilha

Casado com a roteirista Fernanda Tosini e pai de dois meninos, o professor e cineasta João Paulo Miranda Maria saiu do interior de São Paulo para ganhar o mundo no Festival de Cinema de Cannes e esteve presente no 5º Olhar de Cinema, em Curitiba.

Nascido em Porto Feliz, na Região Metropolitana de Sorocaba (SP), o paulista se mudou aos dois anos junto com os pais, José e Sônia, para a cidade de Rio Claro, a cerca de 200 quilômetros de São Paulo.

Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação.

Na infância, assim como muitos Joões, ele sonhou em ser um astro de futebol. Na adolescência, desenvolveu a habilidade de desenhar, pegou gosto pela leitura de histórias em quadrinhos e fotografava pessoas comuns em busca da beleza da rotina. Para cada clique um enredo em sua cabeça. O hábito se tornou um dos seus principais hobbies e um exercício para o que seria no futuro.

“Eu sempre parava pelos bairros e tirava fotos de pessoas e da rotina do dia a dia. Gostava de imaginar histórias daquelas pessoas anônimas”, conta.

Em um curso de quadrinhos, conheceu um professor da Universidade de São Paulo (USP) com quem aprendeu sobre a estrutura da produção de roteiros para quadrinhos e o interesse e paixão pela produção cinematográfica nasceu. Nos scripts, o professor citava obras de Stanley Kubrick. Não levou muito tempo para que João descobrisse o legado do diretor e se apaixonasse perdidamente pelo cinema. “Foi o primeiro cineasta que adorei e fiquei fanático. 2001 – Uma Odisseia no Espaço é um filme que até hoje me fascina. Quando vi a força daquelas imagens, falei: ‘é isso que eu quero fazer’”, conta.

Aos 16 anos, João se juntou com colegas do primeiro colegial e formou sua primeira equipe de cinema. Empreendedor nato, o porto-felicense conseguiu a participação de profissionais e equipamentos sem nenhum custo, mas a produção, filmada em um final de semana, nunca foi concluída. “Depois de dois dias gravando, não consegui fazer o que eu queria. Eu ficava procurando perfeccionismo, então pra cada plano eu filmava de 20 a 30 vezes. As pessoas cansavam e iam embora”, conta rindo. Ele diz que o primeiro filme valeu como experiência e abriu as portas para o futuro vestibular em Cinema.

Aos 17 anos, José, pai de JP, decidiu trocar sua moto por uma câmera de vídeo para o filho. Com material próprio, Miranda passou meses gravando um documentário sobre usuários do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) de Rio Claro. Com ajuda da mesma produtora que auxiliou na primeira empreitada, o cineasta pôde editar todo o material, mas não chegou a publicá-lo.

Em 2002, aos 20 anos, João deixou a família, emprego e amigos e foi para o Rio de Janeiro. Lá, iniciou os estudos em Cinema. Estagiou em produções como Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes, e por quase um ano na Rede Globo em produções como A Grande Família. Foi um bom começo, mas não era aquilo que queria para o futuro. Não era TV e não era a capital fluminense.

Após concluir a graduação, João decidiu voltar para sua cidade natal e fez um mestrado em Cinema na Unicamp, em Campinas (SP). Concluiu os estudos com uma dissertação sobre o projeto do cineasta franco-suíço Jean Luc-Godard. Isso abriu novos caminhos para a carreira do diretor brasileiro.

‘Os grandes protagonistas são as pessoas comuns, que a gente convive, e que muitos não valorizam por estar fora dos padrões de beleza e da moda.’

Foi com base nos estudos de Godard que o jovem cineasta criou, em 2006, o coletivo Kino-Olho, nome que faz referência ao termo “cinema-olho”, do documentarista russo Dziga Vertov. O grupo, que se reunia durante sessões de um antigo cineclube do interior para trocar e compartilhar experiências, cresceu e se tornou um grupo de estudos e pesquisa que gerou mais de 60 edições da revista Cinema Caipira. O termo, usado por João até hoje, remete ao tipo de cinema que produz.

Talentoso e perspicaz, o brasileiro conquistou com o curta A Girl and a Gun o primeiro lugar do Mobile Phone Movie Competition, da emissora CNN, em 2009. A produção nasceu de um dos encontros do coletivo e foi enviado à premiação de forma despretensiosa.

Em 2015 foi a vez de Command Action. O curta, apesar do nome importado, conta uma história brasileira: um garoto fica fascinado por um robô de brinquedo, que dá nome ao filme, após receber da mãe a missão de comprar verduras na feira de rua da cidade. Produzido pelo coletivo Kino-Olho e rodado com dinheiro arrecadado em rifas e de recursos próprios, o curta foi exibido na Semana de Crítica do Festival de Cannes, na França.

Antes de pisar em solo curitibano, João Paulo Miranda Maria voltou a Europa neste ano e recebeu Menção Especial do Júri na 69ª edição do Festival de Cannes. Entre mais de cinco mil curtas inscritos por diretores de todo o mundo, foi A Moça que Dançou com o Diabo que chamou a atenção dos críticos. Rodado com o orçamento de R$ 500, o filme é uma releitura de uma lenda do interior paulista, contada há mais de cem anos, em que uma moça dança com o próprio Diabo disfarçado em uma festa. Na adaptação, a menina vive os conflitos de suas descobertas da adolescência com o ambiente religioso em que vive.

A moça que dançou com o diabo
Durante as gravações de A Moça que Dançou com o Diabo. Foto: Divulgação.

O curta também conquistou o prêmio de Melhor Curta-metragem por voto popular no 5º Olhar de Cinema de Curitiba nesta quarta-feira (15). Sobre os personagens e a linguagem usada nos dois filmes, Miranda diz que traz desde sempre o interesse por personagens comuns. “Eu sempre tive interesse sobre a coisa mais simples, mais rústica e personagens mais comuns. Eu gosto de falar dessas pessoas. Os grandes protagonistas são as pessoas comuns, que a gente convive, e que muitos não valorizam por estar fora dos padrões de beleza e da moda”, afirma. Para o diretor, esse tipo de personagem e linguagem cinematográfica é o que configura o “cinema caipira”, termo que batizou o nome da revista produzida pelo Kino-Olho.

Inspiração e admiração

Foi com Stanley Kubrick, em 2001 – Uma Odisseia no Espaço, que a fascinação pela sétima arte nasceu. O diretor também não esconde a predileção pelo cinema europeu de Ingmar Bergman, e por Federico Fellini e o neorrealismo italiano.

No Brasil, o premiado diretor admira o cinema pernambucano e a fuga das produções do eixo Rio-São Paulo. Nomes de diretores como Gabriel Mascaro, de Boi Neon, e Kléber Mendonça Filho, de Aquarius, são os mais admirados. “São eles que contribuem para a formação de uma geração de cineastas que possam olhar para outros lugares do Brasil.”

Próximos passos

Agora, os esforços do diretor estão voltados ao novo projeto do coletivo, o Cinema Open Air e a produção do primeiro longa-metragem da equipe.

Cinema Open Air: A iniciativa pretende colocar em exibição obras de relevância artística, consagradas na história do Cinema, e divulgar as produções do Kino-Olho para o público de Rio Claro de forma gratuita.

A moça que dançou com o diabo
Cena de A Moça que Dançou com o Diabo. Foto: Divulgação.

O projeto também pretende democratizar o acesso da população mais carente e nas regiões mais afastadas da cidade. “[Em Rio Claro] existem vários espaços públicos que podem servir para a exibição ao ar livre. A gente vê que há muitos bairros periféricos e pessoas de diferentes localidades que acabam não indo ao centro da cidade e que não tem tanto acesso”, conta.

O primeiro longa: O filme deve ser produzido durante a metade do ano que vem e lançado em 2018. O projeto deve contar com o apoio de duas produtoras, uma brasileira e outra francesa, e conta a história de imigrantes do interior de Goiás que se mudam para uma cidade pequena de Santa Catarina.

O roteiro passa pelo segundo tratamento e teve parte desenvolvida no laboratório de diretores, em Cannes, e assim como as últimas duas produções premiadas também vai contar com uma atmosfera tensa, envolta em drama e violência explícita e por vezes invisível.

 

* Fernando Garcel é estudante de jornalismo no UniBrasil Centro Universitário.

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