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A Visita e a volta (não tão triunfal) de M. Night Shyamalan

Trocando em Miúdos: M. Night Shyamalan, diretor de O Sexto Sentido, não empolga como em seus primeiros filmes, mas depois de uma enxurrada de obras ruins, provoca o público em A Visita sem se importar se a plateia sairá do cinema frustrada ou não.

M. Night Shyamalan foi do céu ao inferno em pouco tempo. Em 1999, o mundo se surpreendeu com O Sexto Sentido, e seu nome foi alçado ao hall dos maiores diretores de suspense de todos os tempos, sendo comparado a Hitchcock. Ele não só fez ótimos filmes, como inaugurou uma nova forma de se fazer suspense, com reviravoltas inteligentes que deixavam o espectador de boca aberta. Porém, a comparação, saberíamos mais tarde, foi precoce. Shyamalan ainda acertou em Corpo Fechado, Sinais A Vila, mas começou a cair após A Dama na Água, Fim dos Tempos e O Último Mestre do Ar. Os mesmos críticos que o elevaram, agora o derrubavam. E nós, o público, não esperamos menos do que nos foi vendido. Dessa forma, em todo lançamento esperamos um novo filme que nos faça sentir o frio na espinha que sentimos com O Sexto Sentido. E em todo lançamento saímos decepcionados. Dito isso, A Visita, em cartaz em todo o Brasil a partir desta quinta-feira, vai frustrar muita gente, mas parece que essa era exatamente a intenção de Shyamalan.

Antes de tudo, temos de admitir que o diretor sabe criar argumentos originais e instigantes. Em A Visita, isso não é diferente. Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) são dois irmãos adolescentes que vivem com a mãe desde que o pai os abandonou. A mãe, que não tem uma relacionamento muito bom com seus próprios pais, decide fazer com que os filhos passem um tempo com os avós maternos, que nunca conheceram. Becca, aspirante a cineasta, decide documentar essa visita, filmando todos os momentos. O que começa de maneira agradável vai ficando cada vez mais estranho a medida que seus avós começam a agir de forma bizarra. Tudo isso nos é mostrado em primeira pessoa, com o já gasto recurso de found footage, porém, com o talento de Shyamalan, as situações se tornam estranhamente interessantes.

Shyamalan consegue criar facilmente uma sufocante tensão em seu público. A câmera, embora previsível, assusta em diversos momentos. O casal de velhinhos, vividos por Deanna Dunagan e Peter McRobbbie, vão de avós doces para pessoas completamente assustadoras apenas com o olhar.  Na cena mais tensa do longa, o diretor coloca o espectador dentro de um jogo de pique-esconde macabro, onde a bizarrice da situação acaba aterrorizando a plateia facilmente.

Deanna Dunagan interpreta uma avó que vai da doçura à bizarrice em segundos
Deanna Dunagan interpreta uma avó que vai da doçura à bizarrice em segundos. Foto: Divulgação.

Ainda assim, nada disso parece empolgar ou mostrar algo novo dos que os incontáveis filmes nesse estilo já fizeram. Até que, quase como se Shyamalan estivesse de saco cheio do que esperam dele, o diretor surpreende ao inserir o gênero que menos se espera em um filme de terror: a comédia. E não estamos falando de filmes trash ou adolescentes, onde a ironia é a chave para o sucesso. Estamos falando de um filme que assusta, ao mesmo tempo em que inclui cenas tão nonsenses que o terror é quase deixado de lado, ainda que a tensão permaneça durante toda a projeção. Por meio de Tyler, o irmão mais novo, o filme entrega situações hilárias nos momentos mais improváveis. Quando o público espera um susto, vem um riso. E não é um riso nervoso, de apreensão. É comédia pura, com sacadas geniais do tipo substituir palavrões por nomes de cantoras pop, por exemplo.

A dupla de crianças Olivia DeJonge e Ed Oxenbould surpreendem com atuação acima da média
A dupla de crianças Olivia DeJonge e Ed Oxenbould surpreendem com atuação acima da média. Foto: Divulgação.

É apenas um suspense um pouco acima da média, mas para um diretor que é escravo do seu próprio nome, isso soa como libertação.

Tudo isso, obviamente, pode gerar um anti-clímax no público, mas é aí que o talento de Shyamalan prevalece. Se quebrar a tensão em momentos-chave pode irritar a plateia, o diretor consegue fazer o recurso funcionar. A verdade é que Shyamalan parece rir de todos e dele mesmo. Não se levando a sério, ele consegue relaxar e não cria um filme superestimado. É apenas um suspense um pouco acima da média, mas para um diretor que é escravo do seu próprio nome, isso soa como libertação.

Porém, Shyamalan não deixa de imprimir suas marcas já conhecidas em outras obras, especialmente a tão esperada reviravolta final. Em A Visita, a revelação ganha contornos ainda mais assustadores e o diretor consegue facilmente enganar a platéia, ainda que pistas expositivas demais sejam jogadas durante a projeção. Infelizmente, é após a revelação que o diretor perde a mão e desboca para uma sucessão de clichês cansativos, que quebram todo o ritmo do filme. Muito disso, sejamos justos, pode vir da exigência do estúdio, já que abrir mão de certos convencionalismos pode afetar a bilheteria.

Mas é interessante, afinal das contas, perceber que o diretor está arriscando. Mesmo não sendo o tão esperado retorno triunfal, o diretor consegue provocar o público e não se rende a sustos fáceis. A Visita vai deixar muita gente frustrada, quase indignada, mas jamais apática. Shyamalan, afinal, ainda tem a audiência nas mãos.

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A Visita

M. Night Shyamalan, diretor de O Sexto Sentido, não empolga como em seus primeiros filmes, mas depois de uma enxurrada de obras ruins, provoca o público em A Visita sem se importar se a plateia sairá do cinema frustrada ou não.

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Rodrigo Lorenzi

Rodrigo de Lorenzi é jornalista, formado pela PUCPR. Foi colunista de cinema na Gazeta do Povo e ganhador do prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Escreve sobre séries e TV em geral. Ainda não superou o fim de Breaking Bad.

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