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Annabelle e os universos compartilhados do cinema de horror

Coluna discute como universos compartilhados como os das franquias 'Invocação do Mal' e 'Annabelle' consolidam uma tendência da indústria cinematográfica e criam um problema para o público.

A primeira cena de Annabelle (2014), de John R. Leonetti, retoma os momentos iniciais da história da boneca demoníaca homônima apresentada em Invocação do Mal (2013). Apenas a gravação dos personagens relatando o estranho comportamento do brinquedo é ouvida pelo público, que não necessariamente precisa ter assistido ao primeiro filme para entender a história. Os últimos minutos encerram a conexão com o popular longa‐metragem de James Wan.

Se não assistirmos a tudo o que os estúdios nos oferecerem, nunca poderemos vislumbrar a experiência completa oferecida pela obra.

Annabelle 2: A Criação do Mal (2017), dirigido por David F. Sandberg, começa como uma história completamente independente das anteriores inicialmente. O desfecho da obra, no entanto, ignora essa característica com um final aberto, que só faz sentido para quem viu a obra de Leonetti, lançada três anos antes.

O universo compartilhado formado pelas franquias Annabelle e Invocação do Mal está ficando mais complexo e seguindo uma lógica semelhante às adotadas em adaptações de quadrinhos da Marvel Studios. Hoje, para compreender a lógica do mundo em que se passam os fatos dos filmes é preciso ver quatro deles. Outras duas produções ambientadas na mesma realidade estão sendo preparadas pela Warner Bros, The Nun (2018) e The Crooked Man (ainda sem data), ambas inspiradas em criaturas apresentadas em Invocação do Mal 2 (2016).

No livro A Cultura da Conexão, Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua E. Greene propõem que o público espera hoje fazer juntar peças perdidas deixadas pela indústria cultural, compartilhando histórias da ficção com as quais tem mais familiaridade. Justamente por isso, enredos transmidiáticos se tornaram profundamente populares nos últimos anos. Vivenciar um universos de forma seriada nos proporciona crescer e dividir memórias com personagens da ficção. Também é uma maneira de fidelizar uma plateia, que ao se identificar com as primeiras histórias, sempre estará disposta a consumir mais do mesmo.

A tendência, que provavelmente tem suas origens no primeiro Star Wars (1977), está se espalhando também para o horror. Uma das grandes surpresas de Fragmentado (2017), de M. Night Shyamalan, é a cena final, que revela que o enredo se passa na mesma cidade em que se passa Corpo Fechado (2000), do mesmo diretor. Embora tenha sido considerado um dos grandes fracassos do ano, o remake de A Múmia (2017) tinha basicamente a função de lançar um mundo conectado chamado Dark Universe (leia mais).

Uma série de filmes que se conectam pelo fato se passarem em um mesmo mundo e que releva fatos de histórias anteriores parece atraente. O problema é que, em algum momento, teremos mais produções do que seremos capaz de acompanhar. Se não assistirmos a tudo o que os estúdios nos oferecerem, nunca poderemos vislumbrar a experiência completa oferecida pela obra.

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Rodolfo Stancki

Rodolfo Stancki é jornalista e consome filmes de horror desde criança, com predileção por tramas com monstros e efeitos visuais práticos. É autor da dissertação "A Representação Social do Cinema de Horror", defendida na UEPG. Atualmente, pesquisa o gênero cinematográfico no doutorado em Tecnologia, na UTFPR, e leciona na Escola de Comunicação do UniBrasil Centro Universitário.

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