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Em seus roteiros, Shyamalan antecipa os finais dos próprios filmes

Coluna discute como M. Night Shyamalan antecipa elementos de suas histórias em seus roteiros, provocando o público ou os conduzindo para certas reações emocionais.

Pouco antes de revelar ao terapeuta vivido por Bruce Willis que vê gente morta (o tempo todo), o personagem de Haley Joel Osment, em O Sexto Sentido (1999), explica que uma boa história deve ter uma reviravolta. Depois de conhecer o segredo do filme, a cena parece reveladora sobre o modo como M. Night Shyamalan articula seus roteiros, sempre antecipando os próprios truques.

Os personagens do diretor indiano sempre estão deslocados da sociedade em que vivem. São pessoas perdidas, que precisam partir para encontrarem parte de si mesmos. Como uma criança que não consegue segurar uma mentira, o cineasta usa seus roteiros para espalhar pistas que dizem como será essa jornada. São spoilers disfarçados.

Muitas vezes, Shyamalan apresenta essas revelações (ou confissões sobre a história que irá contar) logo no começo da trama. Percebemos no início da narrativa que o segurança de Corpo Fechado (2000), também vivido por Willis, tem potencial para se tornar um super-herói. O personagem de Samuel L. Jackson constantemente o lembra disso, criando teorias e conspirações.

Em histórias sem finais surpresas, o hábito de Shyamalan contar a história inteira pode parecer sem sentido. Até torna a trama previsível, diriam.

O público pode não comprar, mas os elementos sobrenaturais de Fragmentado (2017) nunca são menosprezados pela terapeuta interpretada por Betty Buckley, que os defende enfaticamente para um colega de profissão. A existência da criatura é também uma evidência para Dennis, a personalidade controladora de James McAvoy. Apenas precisamos esperar para que ela apareça no fim do filme.

A aula inicial de Mark Whalberg em Fim dos Tempos (2008) antecipa todas as ausências de explicações para os fenômenos naturais que atingirão a humanidade usando o extermínio das abelhas como metáfora. A lenda do Avatar é rapidamente narrada por Nicola Peltz ainda na primeira meia hora de O Último Mestre do Ar (2010), como se estivesse contando o final da saga que nunca seria filmado.

A Vila é mais uma das impactantes obras de Shyamalan
Cena de “A Vila”. Foto: Reprodução.

Em Sinais (2003), os copos de água abandonados pela metade, a asma e as mensagens da mulher de Mel Gibson à beira da morte retornam gloriosamente como ferramentas de combate ao alienígena ferido que ataca a casa. A escolha por uma protagonista cega para A Vila (2004) é obviamente uma maneira de fazer uma alusão ao que efetivamente não conseguimos (ou não queremos) enxergar no convívio do vilarejo supostamente cercado por monstros.

Talvez a produção que melhor ilustre essa mania de Shyamalan revelar os segredos dos próprios filmes seja A Dama na Água (2006). A obra é um estudo sobre narrativas, em que os personagens, pouco a pouco, descobrem-se parte de uma história fantástica sobre criaturas de outros mundos. O zelador do condomínio em que a trama se passa, vivido por Paul Giamatti, aprende rapidamente sobre os elementos que compõem o conto de fadas no qual está envolvido. Parte de sua jornada é entender melhor o seu papel e o dos demais moradores.

Sabemos cedo como será o clímax  do enredo, quando a sereia vivida por Bryce Dallas Howard é resgatada por um pássaro gigante. Também descobrimos que a tarefa precisa de um ritual, que envolve um tradutor, um grupo, um protetor e um curandeiro. Só não sabemos quem são eles. Giamatti pede ajuda a um arrogante crítico de cinema para identificá-los. O antipático personagem erra todas as previsões, que devem ser feitas pelo artista e não pelo comentarista. É uma criança, que provavelmente representa a voz do próprio cineasta, quem descobre quem é quem em cada papel.

Em histórias sem finais surpresas, o hábito de Shyamalan contar a história inteira pode parecer sem sentido. Até torna a trama previsível, diriam. Para mim, parece uma maneira de conduzir o público pela mão, mostrando o que iremos ver, como um preparo de um truque de mágica (expressão que, aliás, é bastante associada ao cinema).

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Rodolfo Stancki

Rodolfo Stancki é jornalista e consome filmes de horror desde criança, com predileção por tramas com monstros e efeitos visuais práticos. É autor da dissertação "A Representação Social do Cinema de Horror", defendida na UEPG. Atualmente, pesquisa o gênero cinematográfico no doutorado em Tecnologia, na UTFPR, e leciona na Escola de Comunicação do UniBrasil Centro Universitário.

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