Espanto

Stephen King e H. P. Lovecraft representam tipos diferentes de horror

Primeira coluna de 2018 discute as diferenças entre dois dos maiores nomes da literatura de horror na percepção do que nos ameaça no mundo.

O cineasta John Carpenter costuma dizer em entrevistas que há dois tipos de histórias de horror. Na primeira, o monstro está sempre distante, isolado em castelos, florestas e oceanos. Na segunda, o que nos ameaça está perto, muitas vezes dentro do nosso próprio cotidiano. Essa diferença também parece ser o que separa as narrativas de Stephen King e H. P. Lovecraft, dois dos maiores nomes do gênero na literatura.

Lovecraft ficou famoso por explorar a ideia de que o horror está lá fora, no desconhecido. Suas tramas abordam saberes proibidos, que facilmente podem levar curiosos à loucura. As criaturas cósmicas de seus livros são profanas, indescritíveis e viscerais. A menção a uma delas pode condená-lo a uma morte horrível.

Em O Chamado de Chthulhu, um homem investiga anotações de um professor de linguística que ficou obcecado por um culto de adoração a uma entidade antiga. Nas Montanhas da Loucura trata de uma expedição na Antártida que descobre as ruínas de uma cidade pré-histórica, o que provoca a morte de praticamente todos os exploradores. O Caso de Charles Dexter Ward mostra um jovem que passa a sofrer modificações físicas quando se envolve com os interesses do tetravô, que estudava alquimia.

Lovecraft e King são lados diferentes de uma mesma moeda. Suas obras exploram e criam medos que nos fazem pensar o quanto o mundo pode ser inseguro.

Para Lovecraft, quem vive à margem do oculto geralmente está seguro. Seus heróis vão atrás do perigo, mais ou menos como fazem os protagonistas de Drácula, de Bram Stoker, ou Frankenstein, de Mary Shelley.

Influenciado por histórias de quadrinhos baratas de horror e programas de televisão como Além da Imaginação, Stephen King consolidou sua literatura trabalhando o horror que está por perto. Seus seres monstruosos rondam nossa comunidade quando não estão dentro da nossa própria casa.

Em Christine, livro que foi adaptado pelo próprio Carpenter para o cinema, um carro adquirido por um adolescente quando passeava pelo bairro é possuído por um espírito possessivo e assassino. Embora existam fantasmas dentro do Hotel Overlook, o próprio Jack Torrance é quem tem rompantes de violência contra a família em O Iluminado. A cidade inteira de A Hora do Vampiro se torna uma ameaça para um grupo de moradores que não foi mordido por um vizinho.

Richard Matheson e Ray Bradbury, nomes que o criador do palhaço Pennywise costuma citar como suas principais influências literárias, já pensavam nessa ideia do horror como um elemento intrínseco ao cotidiano. O fantástico e o extraordinário para esses autores estava no dia a dia das pessoas, que, mesmo sem saber, poderiam ser vítimas de terríveis ameaças.

Essa dualidade entre Lovecraft e King também estabelece uma importante definição conceitual do gênero. O horror clássico, sedimentado no século XIX, sempre coloca o perigo como algo que é alcançado, por curiosidade, ousadia ou ignorância. O horror moderno é aquele em que se esbarra durante uma tarefa ordinária, com ambientes, rostos e situações que não são nada estranhas às vítimas.

Os dois escritores são lados diferentes de uma mesma moeda. Suas obras exploram e criam medos que nos fazem pensar o quanto o mundo pode ser inseguro. Seja aqui perto ou lá longe.

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Rodolfo Stancki

Rodolfo Stancki é jornalista e consome filmes de horror desde criança, com predileção por tramas com monstros e efeitos visuais práticos. É autor da dissertação "A Representação Social do Cinema de Horror", defendida na UEPG. Atualmente, pesquisa o gênero cinematográfico no doutorado em Tecnologia, na UTFPR, e leciona na Escola de Comunicação do UniBrasil Centro Universitário.

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