Olhar em Série

A experiência atordoante de ‘American Gods’

Adaptação da obra de Neil Gaiman, ‘American Gods’ é uma série de forte arrebatamento estético e narrativo que faz um tratado sobre os Estados Unidos.

Não consigo pensar em outra série que tenha resultado em uma experiência tão conflitante para mim – e que alguns amigos próximos também tiveram relação semelhante. American Gods, adaptação televisiva da obra do escritor Neil Gaiman (Deuses Americanos, Rocco), é uma aventura muito diferente de qualquer outra do universo fantástico na TV.

A série carrega em si uma constante sensação mista de surpresa, desorientação, arrebatamento estético e narrativo, mas que não foge de deixar o espectador um pouco atordoado, seja pelas inúmeras camadas de referências históricas e culturais, seja pela bagagem mitológica descarregada sem muita explicação – e com pouquíssimo tempo para assimilação.

American Gods segue a história de Shadow (Ricky Whittle), um presidiário que descobre na véspera de ser solto que sua esposa, Laura (Emily Browning), morreu em um acidente de carro. A situação, que já era de profunda tristeza, assume requintes de crueldade (ao menos para o protagonista) pelo ocorrido no momento da morte: a esposa de Shadow foi encontrada morta com o pênis de seu melhor amigo na boca. A situação pitoresca acrescenta uma carga dramática muito maior do que a peculiaridade dela em si.

Em partes, nossa sensação de atordoamento é a mesma pela qual o protagonista está passando. Até aquele instante, Shadow e Laura estavam a ponto de ficarem juntos novamente, mas eis que uma guinada na vida e tudo muda de repente, e então estamos diante de um Shadow que precisa encarar a tristeza e o luto, enquanto tenta digerir a infidelidade da esposa. Entretanto, American Godsé muito mais que essa desilusão amorosa de Shadow.

A série segue Shadow enquanto ele recebe uma oferta de trabalho de um personagem enigmático, que se tornará seu companheiro durante uma batalha entre deuses para dominar a América. Produzida por Bryan Fuller, o grande nome por trás de Hannibal (outra adaptação comandada por ele), a série contém todo o DNA do trabalho de Fuller, inclusive o excesso de informação, suficiente para fazer com que o público, em especial o que não tenha tido contato com a obra de Gaiman, fique completamente perdido nos capítulos iniciais, algo característico nos projetos do showrunner.

O resultado da tela é incrivelmente bonito, fascinante, brilhantemente executado por Fuller e sua equipe, mas é realmente difícil de acompanhar (eu mesmo quase deixei a série da Starz, adquirida para distribuição mundial pela Amazon, logo no início).

O resultado da tela é incrivelmente bonito, fascinante, brilhantemente executado por Fuller e sua equipe, mas é realmente difícil de acompanhar (eu mesmo quase deixei a série da Starz, adquirida para distribuição mundial pela Amazon, logo no início). Há um narrador que não nos é apresentado, assim como uma série de deuses que surgem do nada, sem maiores explicações – o que torna, inclusive, difícil de lembrar seus nomes. Em partes, American Gods exige do público uma suspensão da descrença que talvez alguns não tenham em quantidade suficiente para oferecer. Contudo, não é de se estranhar as opções narrativas e estéticas de Fuller, que opta por dar vida a este universo sombrio de Neil Gaiman com requintes de sadismo: o roteiro nos mantém, constantemente, em um estado de desorientação, sem entregar nenhuma instrução do que esperar, para onde ir ou o que são aquelas inúmeras informações oferecidas a nós.

Gaiman escreve em seu livro uma crônica sobre o Estados Unidos, indo fundo em examinar o espírito americano, abordando desde a era da informação até o significado da morte, inserindo um senso de humor e um estilo narrativo muito peculiar – e que lhe renderam fama. Nesta crônica, deuses improváveis chegam até a América trazidos por pessoas que os adoravam, desde exploradores até escravos. Com o passar do tempo, eles vão sendo esquecidos e seus poderes diminuem em virtude que a crença das pessoas neles desaparece. Concomitantemente, surgem novos deuses que refletem as obsessões dos americanos, como a mídia, as celebridades, a tecnologia, as drogas, entre outros.

Na adaptação de Bryan Fuller, a obra de Gaiman se torna uma estonteante imersão em recursos visuais fabulosos e músicas assombrosas. A vantagem do produtor em relação a seus trabalhos anteriores é que em American Gods ele tinha em mãos um projeto cheio de simbolismos, capazes de ecoarem de forma muito mais ampla e significativa. American Gods, livro e série, procuram fazer um tratado sobre os Estados Unidos, com suas ranhuras e camadas mais subterrâneas, usando toda a estranheza e fantasia possíveis para chegar a seu objetivo.

Talvez uma fraqueza da obra seja colocar um protagonista que, por vezes, parece menos interessante que os acontecimentos de sua jornada. O trajeto do espectador não é facilitado até por falta de bagagem e contexto para o público médio, mas é uma experiência única para acompanhar o excêntrico e charlatão Wednesday (Ian McShane), as metáforas com os “novos” deuses como a mídia (Gillian Anderson) e outros elementos incríveis do elenco da série.

Com a demissão dos showrunners Bryan Fuller e Michael Green, que estavam em desacordo com os rumos criativos da história, resta saber o que será de American Gods, renovada em maio para uma segunda temporada. O show sempre esteve bastante preocupado em criar um clima que estivesse em acordo com o subtexto da trama, precisamos saber agora quais serão os riscos assumidos daqui por diante sem a grande cabeça por trás.

Trailer de ‘American Gods’

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Alejandro Mercado

Alejandro Mercado é jornalista e publicitário, com pós-graduações em Comunicação e Sociedade e Multimeios. Foi coordenador adjunto da Coordenadoria Setorial de Comunicação da Secretaria de Cultura de Campinas entre 2005 e 2007, período no qual coproduziu o Unifest Rock, maior festival universitário de música da América Latina. Foi um dos idealizadores e coprodutor do Mopemuca, projeto voltado ao fomento da produção musical autoral no interior de São Paulo.

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