Olhar em Série

Black Mirror e a nossa realidade aumentada – episódios 1 ao 3

A coluna "Olhar em Série" analisa os três primeiros episódios de "Black Mirror", uma das séries mais importantes da televisão atual.

Black Mirror não é somente a série mais interessante da televisão atualmente como se faz necessária, já que raramente produções conseguem obter o feito da produção britânica. Pode pesquisar por aí. Ao término de todos os episódios – mesmo os mais fracos – a sensação é de estranheza, um incômodo constante. O que vemos é ficção científica, uma visão pessimista do futuro ou apenas nossa realidade aumentada? Independentemente da sensação, a série causa reflexões profundas.

Depois de duas temporadas exibidas pelo canal Channel 4, do Reino Unido (você pode ler a crítica aqui), Black Mirror expande sua popularidade em seis novos episódios (antes eram apenas três), agora distribuídos pela Netflix. Para o criador da série, Charlie Brooker, a distribuição pelo serviço streaming é uma oportunidade criativa imensa, já que não precisa necessariamente se preocupar com audiência ou com a duração dos episódios. Para nós, é a chance de levarmos um soco no estômago a cada episódio. É constrangedor quando alguém nos expõe dessa forma, mas nós gostamos do sadismo e pedimos mais.

Considerada a versão moderna de Além da Imaginação, clássica série que contava histórias de terror, suspense e ficção científica, Black Mirror consegue assustar bem mais do que a veterana, porque quase nada visto na tela chega a ser tão futurista a ponto de não imaginarmos que aquilo realmente possa acontecer. Dessa forma, é fácil compreender o que poderia ocorrer caso a realidade virtual se sobrepusesse à realidade atual. Em quase todas as histórias, nós somos controlados por celulares ou aplicativos criados para, teoricamente, melhorar nossas vidas, nos dando mais liberdade. O que acontece, entretanto, é um efeito reverso.

É constrangedor quando alguém nos expõe dessa forma, mas nós gostamos do sadismo e pedimos mais.

Talvez o que mais assuste em Black Mirror não seja a tecnologia de fato, mas a ação do ser humano. É quase como aquela afirmação: não importa quem inventou a arma, mas quem puxa o gatilho. Não é tão absurdo pensar, por exemplo, que o mundo atual viva em busca de curtidas. Reações no Facebook podem render dinheiro, youtubers ganham muito mais dinheiro do que um trabalhador médio e o Instagram te sugere usuário com corpos esculturais com mais de 50 mil coraçõezinhos. É difícil que as curtidas virem moeda de troca, como é visto no primeiro episódio da nova temporada, mas quem pode afirmar que não há um mundo paralelo entre as fotos do Instagram e a realidade?

Dito isso, a coluna “Olhar em Série” analisa os três primeiros episódios da terceira temporada (os outros três você confere na próxima semana). Ainda que seja perceptível uma sutil mudança na narrativa e uma fragilidade na sutileza de suas críticas, Black Mirror ainda é uma da séries mais imperdíveis do ano.

Nosedive
Direção: Joe Wright; roteiro: Charlie Brooker, Mike Schur e Rashida Jones)

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Ainda que traga um discurso óbvio demais, “Nosedive” é Black Mirror em sua essência. Afinal, a série acerta mesmo quando pega uma característica da sociedade atual e a aumenta 50 vezes. Em um mundo no qual a dinâmica social é determinada por comentários, curtidas e avaliações, Lacie (Bryce Dallas Howard) se esforça para chegar o mais perto da média de popularidade possível. Para isso, Lacie precisa não apenas aparentar uma vida perfeita, limpa e cheia de sorrisos, mas conquistar curtidas de pessoas mais influentes.

Aqui, tudo é absurdo ao mesmo tempo que em que nada é mentiroso. Afinal, basta uma rápida pesquisa no Google para descobrir como ganhar likes ou até um curso para tirar a selfie perfeita. É angustiante perceber todos os habitantes de uma cidade andando com um celular na mão, sorrindo forçosamente e fazendo poses milimetricamente calculadas. Nós ficamos chocados, mas com uma rápida olhada para fora da janela percebemos que fazemos exatamente a mesma coisa, em maior ou menor grau. É basicamente um Yelp ou TripAdvisor sobre pessoas. Quem tem menos de três pontos de média é considerado um estranho, alguém que deve ser evitado.

A angústia do público é a mesma da personagem, que vai se libertando ao poucos. Com uma direção bastante eficiente, o episódio impacta pelo excesso de cor, uma fotografia clara, insípida, sem nada fora do lugar. É basicamente o episódio mais bonito visualmente dessa nova temporada. O que mais encanta e assusta, entretanto, é que “Nosedive” envolve o modo como as redes sociais têm definido as relações interpessoais e o desejo de fazer parte de um grupo. O garoto popular aceitou sua solicitação de amizade? Vitória! Aquela pessoa curtiu sua foto? Você conseguiu! Seu amigo não responde sua mensagem no Facebook? Ele deve ser excluído! Visualizou e não respondeu? Morte!

A única coisa que enfraquece “Nosedive” é, digamos, a preguiça dos roteiristas em criar metáforas menos óbvias. Black Mirror sempre foi sutil em suas crítica e, aqui, parece não se esforçar muito. Mesmo assim, por nos identificarmos tanto com os personagens, o episódio acaba abrindo de forma impactante a temporada, já que, de alguma forma, tudo isso já está acontecendo. E se você acha que não, dá uma olhada nessa notícia (em inglês).

Playtest
Direção: Dan Trachtenberg; roteiro: Charlie Brooker

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Foto: Reprodução.

Um jovem norte-americano, em busca de novas experiências em Londres, não consegue sacar dinheiro nos caixas eletrônicos para voltar aos EUA. Ele, então, aceita participar como cobaia de um novo e revolucionário sistema de jogos virtuais que funciona por meio de um implante no cérebro. Em troca, ele recebe um bom dinheiro. O que começa como um jogo inocente, termina por levá-lo a uma casa em que se seus piores medo são reproduzidos virtualmente.

Ainda que seja um episódio aterrorizante em sua execução (uma casa mal-assombrada, aranhas gigantes com rostos humanos etc), não é um episódio, digamos, com impacto universal. Mesmo que seja bastante clara a discussão dos jogos com realidade aumentada (“Pokémon Go” poderia chegar a isso?), o roteiro não chega a causar reflexão, mas puro medo pelo jogo de cena. Longe de ser ruim, “Playtest” funciona mais pelo carisma do protagonista do que propriamente pela história, que acaba se transformando em um simples episódio de terror – e os minutos finais são realmente assustadores. Entretanto, não é um daqueles episódios essenciais, mas é divertido no sentido de alimentarmos nosso sadismo e atração pelo medo. Para os gamers, entretanto, o episódio pode ser uma experiência bem mais interessante.

Shut Up and Dance
Direção: James Watkins; roteiro: Charlie Brooker e William Bridges

Black Mirror
Black Mirror. Foto: Reprodução.

O episódio com menos ficção científica até agora é também o mais sombrio e muito mais amedrontador do que seu anterior, justamente porque expõe a podridão do ser humano, quando está atrás de uma tela de computador. Um jovem é chantageado por um grupo misterioso que, por meio de mensagens de texto, obriga o garoto a cumprir uma série de tarefas. Caso ele não cumpra, um vídeo íntimo dele será divulgado para toda a Internet.

O sucesso de Black Mirror vem justamente da força com que os episódios batem no público. “Shut Up and Dance” é devastador porque a narrativa nos mostra um adolescente comum, que se masturba vendo sites pornôs e trabalha em uma lanchonete, mas que aos poucos revela uma nova persona que só existe on-line. Ele pode ser nosso vizinho.

Se na primeira parte da narrativa nós pensamos em como a privacidade virtual é uma falácia e que não somente hackers podem invadir nossa intimidade, como empresas “regulamentadas” mantêm todas as nossas conversas e fotos armazenadas, a reviravolta final do episódio se torna chocante ao nos fazer refletir: somos mais verdadeiros na vida real ou na internet?

Longe de passar uma mensagem panfletária do tipo “não veja pornografia, você será punido”, o episódio levanta uma questão maior: até onde você iria para encobrir seus passos na internet? E qual seria sua reação caso se isso vazasse para toda sua rede de amigos: Diferentemente dos outros episódios, nada na história se passa num futuro próximo ou distante. É atual e triste. A história ainda arranja tempo para discutir os hackers e trolls anônimos, aqui representados por um famoso meme da Internet, que consegue muito dinheiro ao invadir a privacidade online dos usuários. Tanto o conteúdo pelo qual os personagens estão sendo chantageados como a forma com a qual eles lidam com a chantagem é crível, horrível e assustador. Um dos maiores acertos da temporada.

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Rodrigo Lorenzi

Rodrigo de Lorenzi é jornalista, formado pela PUCPR. Foi colunista de cinema na Gazeta do Povo e ganhador do prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Escreve sobre séries e TV em geral. Ainda não superou o fim de Breaking Bad.

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