Olhar em Série

Segunda temporada de ‘Empire’ é tão ruim que acaba sendo ótima

Repetindo todos os exageros da primeira temporada, segundo ano de 'Empire' utiliza o mais básico das narrativas para nos apresentar a uma das séries mais divertidas da TV.

A série-musical Empire é um fenômeno, ao menos nos Estados Unidos. Seu primeiro ano quebrou recordes de audiência, com números crescentes a cada episódio, e se tornou uma das mais vistas de 2015. Tal como Glee, Empire viu as músicas, produzidas exclusivamente para a série, irem ao topo das paradas. A segunda temporada, exibida entre 2015 e 2016, continuou liderando o canal FOX e consolidou a produção como um dos maiores acertos da emissora em anos.

Como não se mexe em time que está ganhando, o segundo ano de Empire continuou sendo uma novela mexicana das boas, com todas as falhas e cafonices que esperamos ao assistirmos a séries como esta. A gente até se sente incomodado com um roteiro tão ruim, mas com uma edição esperta, boas músicas e personagens irresistíveis, nos resta apenas relaxar a aproveitar o que há de mais puro no entretenimento.

A série não é muito conhecida no Brasil, então aqui vai o lembrete da sinopse: criada pelo ator Danny Strong (Virada no Jogo, O Mordomo da Casa Branca, Jogos Vorazes e Buffy) e pelo cineasta Lee Daniels (Preciosa, Obsessão, O Mordomo da Casa Branca), Empire gira em torno de Lucious Lyon (Terrence Howard), dono de uma gravadora de discos de hip-hop, a Empire. Vindo de um mundo marginalizado, Lucious fez seu nome na história da música, sendo um dos mais respeitados no segmento hip-hop.

No primeiro ano da série, Lucious passou a temporada inteira achando que tinha uma doença grave e que morreria em pouco tempo. Por isso começou uma corrida para saber quem da família herdaria o império da gravadora.

É uma obra puramente feita para entreter e consegue fazer isso de maneira exemplar.

As opções eram as novas apostas musicais da gravadora, Hakeem (Bryshere Gray) e Jamal (Jussie Smollet), este último extremamente dedicado e talentoso, mas que ganha a rejeição do pai por ser gay; ou o eficiente e burocrático Andre (Trai Byers), diretor financeiro da empresa e responsável pelo enriquecimento da gravadora, mas que por não ter nenhum talento musical, é uma opção remota para o pai. Para completar a trama, entra a ex-mulher de Lucious, Cookie (Taraji P. Henson), que ficou presa por 17 anos cumprindo uma pena que devia ser do marido, tudo para proteger o legado de sua família.

Taraji P. Henson é a grande alma de Empire
Taraji P. Henson é a grande alma de Empire. Foto: Chuck Hodes/FOX.

Mas como em toda boa novela, obviamente os médicos erraram o diagnóstico e Lucious não tinha nenhuma doença incurável, mas a semente do mal já havia sido plantada e a família vive em pé de guerra desde então para assumir o trono da Empire. É basicamente uma Game of Thrones mais divertida e sem dragões.

O grande sucesso de Empire se deve ao fato de a série trabalhar com narrativas básicas e potencializá-las ao máximo. Dessa forma, tudo é barulhento, exagerado e dramático, mas funciona. Se o primeiro ano conseguiu seguir uma linha de raciocínio em seus eficientes 12 episódios, o segundo ano precisa estender a trama em 18 capítulos, o que força os roteiristas a jogarem inúmeros plots que começam e acabam sem que o público se dê conta, para logo depois a série emendar mais um enredo vertiginoso.

Nenhum personagem é bem definido, podendo ser uma pessoa empática e compreensível em um episódio, para logo depois se transformar em alguém vingativo e sem escrúpulos. Situações são jogadas na tela sem o menor cuidado e há furos e mais furos no roteiro que de vez em quando são retomados quando algum roteirista lembra de alguma ponta deixada para trás.

Mas se tudo é tão ruim, como Empire faz tanto sucesso?

A resposta está em seus personagens. Não espere grandes reflexões ou diálogos primorosos. É uma obra puramente feita para entreter e consegue fazer isso de maneira exemplar. Nesta segunda temporada, mesmo com seis capítulos a mais do que a estreia, nenhum episódio é cansativo e, quando percebemos, estamos nos importando com cada um daqueles personagens, até mesmo Lucious, um homem tão nojento que fica difícil torcer para ele, mas como toda a família gira em torno de sua figura, somos obrigados a ansiar pelo seu sucesso.

Hakeem (Bryshere Gray) e Jamal (Jussie Smollet): destaques durante o segundo ano.
Hakeem (Bryshere Gray) e Jamal (Jussie Smollet): destaques durante o segundo ano. Foto: Divulgação.

E mesmo que não haja muito tempo para grandes epifanias, Empire provoca situações interessantes para o horário nobre norte-americano. Neste segundo ano, por exemplo, a série consegue falar sobre as relações raciais nos Estados Unidos e destacar cada um dos seus personagens. Há poucos brancos na série e eles não ganham lá muito destaque, além de sempre apresentarem um caráter duvidoso. Todos os negros são empoderados e obtêm o respeito das pessoas pelo talento e prestígio.

E tal como no primeiro ano, a homossexualidade de Jamal é um ponto interessante para discutir a dificuldade da comunidade negra em aceitar homens gays, o que leva a um dos diálogos mais cruéis entre Lucious e Jamal, lá pelo final da temporada, em que o próprio pai deseja que o filho morra de Aids. É nesses pequenos conflitos críticos que Empire prova que pode ser muito mais do que que apenas uma metralhadora de músicas bacanas e enredos cartunescos para se tornar, de fato, uma novela acima da média.

Terrence Howard e seu Lucious Lyon
Terrence Howard e seu Lucious Lyon. Foto: Divulgação.

Mas no fim das contas, o sucesso de Empire atende basicamente por um nome: Taraji P. Henson, protagonista do longa-metragem Estrelas Além do Tempo, indicado ao Oscar de melhor filme deste ano. A atriz é um furacão em todas as cenas e nada daquilo funcionaria sem ela. Além de trabalhar como o grande elo entre todos os personagens, Cookie é complexa, forte e detém os melhores diálogos. Todas as ações e falas da personagens poderiam soar desastrosas e fora do lugar, mas tudo funciona de forma impressionante. O modo de andar, as gesticulações, o olhar, todas as ações de Cookie são fascinantes, transformado-a em uma das personagens mais fortes e interessantes da televisão.

Neste segundo ano, Cookie está mais equilibrada e focada e deixa temporada mais interessante graças a suas interferências em todos os plots apresentados. Não há nenhuma história que não leve o dedo de Cookie Lyon e sua força.

Repetindo os vícios e virtudes da primeira temporada, Empire não tem muita pretensão de refinar sua narrativa, embora faça isso em pequenos momentos. A ideia, entretanto, é continuar nos apresentando uma história exagerada e gostosa de assistir. A experiência é vertiginosa e vale a pena.

A terceira temporada será analisada em breve pela coluna “Olhar em Série”. O quarto ano estreia em setembro nos EUA.

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Rodrigo Lorenzi

Rodrigo de Lorenzi é jornalista, formado pela PUCPR. Foi colunista de cinema na Gazeta do Povo e ganhador do prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Escreve sobre séries e TV em geral. Ainda não superou o fim de Breaking Bad.

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