Olhar em Série

‘O Nevoeiro’ desperdiça potencial em uma série mal escrita

Com roteiro, atuação e direção risíveis, a versão para a TV de 'O Nevoeiro' transforma a adaptação de Stephen King em uma piada.

Poderia ter sido incrível, mas Stephen King carrega sempre esta espécie de maldição que é ver suas obras adaptadas para a TV e para o cinema virarem um produto aterrorizantemente mal escrito, salvo poucas exceções que podemos contar nos dedos. O Nevoeiro, conto publicado em 1980 e mais tarde reeditado dentro da coletânea de contos Tripulação de Esqueletos, é um belo exemplo de como uma ideia interessantíssima acaba sendo trucidada por uma execução que envolve inúmeros erros, que vão desde escalação equivocada de atores até decisões criativas que dão vergonha alheia no espectador mais desavisado.

Adaptado para o cinema em 2008 (em uma versão 300 vezes superior a da série e com um dos melhores plot twists da vida), O Nevoeiro conta a história de um grupo de pessoas presas em um supermercado depois que a cidade onde moram é coberta por um nevoeiro denso no qual habitam várias criaturas monstruosas. Na série, produzida por Bob e Harvey Weintein e adaptada por Christian Tope para o canal Spike (e agora disponível na Netflix), a base continua a mesma, mas ao invés de um supermercado, temos um shopping com várias pessoas presas. A narrativa ainda abre para outros lugares da cidade, como uma igreja e um hospital. Caso fosse bem escrita, essa estratégia poderia ter dado muito certo, explorando e ampliando diferentes olhares e características. O problema é que a série começa errada, piora, melhora, piora, melhora um pouco e aí termina.

Morgan Spector (Kevin Copeland) é o herói da temporada com uma atuação mediana. Foto: Divulgação.

Como quase todas as histórias do Stephen King, o sobrenatural serve como base para explorarmos nossos medos e deixar vir à tona o pior do ser humano. Deixar pessoas confinadas sem comida, bebida e completamente perdidas é um dos melhores exemplos de como viramos animais em questões de horas. A série tanta fazer isso a todo tempo, mas não consegue estabelecer diversas coisas importantes para que a gente se importe.

Não é trash o suficiente para ser divertida e nem dramática o bastante para que a gente torça por alguém.

No episódio piloto, é perceptível o esforço de apresentação dos personagens para que sintamos empatia por aquelas pessoas. Conhecemos um soldado misterioso (Ozekie Morro) andando pela floresta meio perdido até que o nevoeiro se aproxima; uma senhora esquisita (a excelente Frances Conroy, de Six Feet Under), muito atenta e amiga da natureza e dos insetos; acompanhamos a família principal, um homem atencioso e herói da história (Morgan Spector), pai de uma adolescente insuportável (Gus Birney, péssima atriz) e casado com uma mulher muito mal falada na cidade (Alyssa Sutherland), professora de ensino médio que foi demitida da escola por ensinar educação sexual às crianças; também somos levados a uma outra mulher misteriosa e viciada em drogas (Danica Curcic), que procura alguma coisa e foge de alguém; e por fim chegamos também no garoto gótico (Russell Posner) que é melhor amigo da adolescente chata e que sofre bullying dos colegas e do pai cruel por ser gay.

Pois bem, com uma gama de personagens, a série vai explorando cada um deles, mas não de um jeito bom. Não é trash o suficiente para ser divertida e nem dramática o bastante para que a gente torça por alguém. Em alguns momentos, inclusive, dá vontade de ver a névoa levando cada um deles embora. A maioria das história e plots são forçados e desnecessários, chegando sempre a uma conclusão tosca ou empurrando a narrativa para algo mais idiota ainda.

Frances Conroy se esforça em um roteiro ruim. Foto: Divulgação.

Na primeira metade da temporada, O Nevoeiro tenta criar a tensão para que depois possamos partir para ação, mas tudo é tedioso porque os personagens não são bem construídos. Dessa forma, a tensão não é pré-estabelecida e a reação dos personagens não parece crível. Boa parte desse problema se dá por causa dos diálogos péssimos, mas são as atuações que chamam mais atenção. Quase nenhuma salva, exceto por Frances Conroy, Russel Posner e Danica Curcic, mas mesmo assim não é nada acima da média. E o prêmio de pior atriz do mundo vai mesmo para Gus Birney, que interpreta a adolescente irritante. Inacreditavelmente, ela parece ter uma importância grande relacionada à névoa.

A série também utiliza vários efeitos especiais que pioram a situação. O canal Spike não é nenhuma HBO, mas poderia ter liberado um pouco mais de grana, porque tudo é computadorizado demais, desde insetos até a própria névoa, que dá a impressão de que os atores estão fingindo que atuam com um fumaça na frente. O filme de 2007 também tinha o mesmo problema, mas lá a tensão é palpável desde o primeiro momento e o filme se torna absolutamente assustador.

Infelizmente, a versão para a televisão não conseguiu surpreender como uma série de terror, não conseguiu emocionar com dramas pessoais e não fez o que mais se esperava vermos na tela: a degradação do ser humano quando submetido a uma situação extrema e de confinamento. A série até melhora um pouco nos seus três últimos episódios, quando insere algumas reviravoltas interessantes, mas com personagens tão rasos, roteiros fracos e atuações medíocres, O Nevoeiro acaba sendo uma bela decepção.

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Rodrigo Lorenzi

Rodrigo de Lorenzi é jornalista, formado pela PUCPR. Foi colunista de cinema na Gazeta do Povo e ganhador do prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Escreve sobre séries e TV em geral. Ainda não superou o fim de Breaking Bad.

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