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‘The Marvelous Mrs. Maisel’: a luta das mulheres em cima do palco

'The Marvelous Mrs. Maisel', nova série da criadora de 'Gilmore Girls', traz um texto verborrágico e uma teatralidade fascinante em uma das melhores comédias do ano.

The Marvelous Mrs. Maisel, disponível na Amazon, é mesmo maravilhosa, como o título já acusa. A nova série de Amy Sherman-Palladino, a criadora de Gilmore Girls, é uma comédia charmosa, engraçada, espertíssima, com ótimos personagens e ainda traz um discurso feminista inspirador. É Mad Men em tom mais informal e agora sob o ponto de vista das mulheres. Não é à toa que ganhou o Globo de Ouro de melhor série cômica este ano.

Para quem já conhece o trabalho da Palladino, em Gilmore Girls, vai reconhecer as melhores qualidades de sua marca. Diálogos absurdamente rápidos, falados pela boca de atores absurdamente versáteis e com um timing perfeito; observações sobre o modo de vida de cada um e a relação entre pais e filhos, tão bem explorado na série das Gilmore. Mas as comparações param por aí. The Marvelous Mrs. Maisel tem identidade própria e carrega uma força narrativa inspiradora para uma comédia.

É Mad Men em tom mais informal e agora sob o ponto de vista das mulheres.

Miriam ‘Midge’ Maisel (Rachel Brosnahan) traçou alguns objetivos na sua vida de acordo com a criação dada pelos seus pais: estudar e se formar na faculdade, arranjar um marido, ter duas ou três crianças e um apartamento em Manhattan, elegante o bastante para oferecer os melhores jantares. Ela vive para servir ao marido Joel (Michael Zegen) e ajudá-lo com suas piadas e apresentações em um bar decadente, onde aspirantes a comediantes stand-up podem mostrar suas ideias.

Tudo caminha calmamente até que Joel se sente frustrado durante uma apresentação, culpa a esposa pelo seu fracasso e abandona Midge sem dar maiores explicações e ainda confessa estar tendo um caso com a secretária da empresa onde ele é vice-presidente. Agora ela é uma mulher e mãe solteira que precisa redefinir sua vida, tudo isso na década de 1950. Mas quando Midge percebe que seu talento é entreter as pessoas como comediante stand-up, ela começa encontrar sua voz e sua independência com a ajuda de Susie (Alex Borstein), gerente do bar onde o marido costumava se apresentar.

Rachel Brosnahan é a alma da série
Rachel Brosnahan é a alma da série. Foto: Divulgação.

Desde o início, a série discute o machismo e o papel da mulher na sociedade nos anos 50, uma época em que guias de como ser uma boa esposas eram facilmente encontrados em livrarias, assim como manuais de como ser uma boa mãe. Ao longo dos episódios, Midge vai encontrando sua força e seu poder, mas isso não é feito com facilidade e ela ainda se vê trancafiada pelas mãos de homens que dizem sim ou não para o que ela pode falar. Qualquer contravenção pode gerar uma prisão apenas por ela ser uma mulher.

Com boa parte dos episódios escritos e dirigidos por Amy Sherman-Palladino e seu marido, Daniel Palladino, a série carrega uma teatralidade deliciosa de se ver. Por muitas vezes percebemos algumas marcações de fala nos atores e uma coreografia no gestual, algo que deixa a série ainda mais charmosa, especialmente quando os episódios lembram filmes antigos da década de 1950. Com diversos planos-sequência, a técnica dá um ritmo frenético à história. Quase não temos silêncio, os atores falam sem parar para respirar e há sempre alguma coisa acontecendo em cena, seja no plano principal ou ao fundo da cena. A direção de arte não perde nada para mega-produções, como Mad Men, e o figurino, feito por Donna Zakowska, é irretocável.

EmboraThe Marvelous Mrs. Maisel traga ótimos atores, como Tony Shalhoub e uma participação ótima de Jane Lynch, a alma da série é Rachel Brosnahan, vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz em série cômica este ano. Sua transição de Sra. Maisel para uma Midge livre das amarras de um casamento é inspiradora e a atriz carrega um domínio do texto e uma força na atuação impressionantes, fazendo com que todos os personagens gravitem em seu entorno. Por isso, a série ganha força quando foca em Midge e em suas piadas, o que exalta o talento de todo mundo envolvido na série, desde a atriz até os roteiristas (especialmente o casal Palladino, com um texto afiado). A série não é engraçada apenas quando Midge está em cima de um palco fazendo seu show de stand-up, mas especialmente quando ela está fora do tablado falando sobre suas observações da vida, uma cronista ambulante e sarcástica.

The Marvelous Mrs. Maisel tem tudo para crescer ainda mais. Com a verborragia deliciosa que somente Amy Sherman-Palladino consegue escrever, a série da Amazon é mais uma ótima série para integrar à safra de boas comédias dos últimos anos.

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Rodrigo Lorenzi

Rodrigo de Lorenzi é jornalista, formado pela PUCPR. Foi colunista de cinema na Gazeta do Povo e ganhador do prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Escreve sobre séries e TV em geral. Ainda não superou o fim de Breaking Bad.

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