Olhar em Série

‘This is Us’ acerta novamente ao explorar nossos sentimentos mais puros

Segunda temporada de 'This is Us' utiliza clichês de maneira inteligente e prova que uma história bem contada é o suficiente para fisgar a audiência.

É bem verdade que This is Us pode ser considerada uma série manipuladora. Cenas bonitinhas aqui, filtros em tons pastéis ali, diálogos seguidos de lágrimas acolá e pronto. Temos a receita de um melodrama completo. Na mão de roteiristas menos experientes, a história de fato descambaria para algo grosseiro e de mau gosto. Mas o texto de Dan Fogelman, criador da série, e de seus roteiristas consegue fazer justamente o contrário. Pode não ser um drama refinado e pode ser um tantinho exagerado, mas funciona de maneira orgânica. Nós não conseguimos ver as armadilhas do roteiro antes de estarmos segurando uma lágrima e fungando o nariz.

Tudo funciona graças a um elenco invejável que consegue transformar o texto delicado em algo muito crível. A dinâmica dos personagens é natural e nós não precisamos nos esforçar para nos convencer de que aquela família realmente existe. Quando vemos, já queremos fazer parte do círculo.

Tudo isso já foi mostrado na primeira temporada, mas é no segundo ano (com 14 episódios exibidos até o momento, incluindo um pós-Super Bowl arrebatador) que a série passa confiança ao público. Não sabemos como eles vão manter o nível, mas até o momento os roteiristas conseguiram trabalhar muito bem com histórias muito simples que transformam a narrativa em uma viagem ao nosso imaginário.

Milo Ventimiglia e Mandy Moore em ótimas atuações
Milo Ventimiglia e Mandy Moore em ótimas atuações. Foto: Divulgação.

Se a vida toda é saudade, This is Us evoca o sentimento.

Se a vida toda é saudade, This is Us evoca o sentimento. Saudade da infância ou de alguma parte da sua vida em que nada era tão complicado. Ou saudade de alguma outra coisa que você não sabe bem o que é. Ao mesmo tempo, não entrega um comercial de margarina. Os personagens não são corretos, mas também não são corruptos. Não há vilões nem anti-heróis. Aquelas pessoas são construídas de tal forma que qualquer fragmento do cotidiano que ocorre com eles pode nos trazer à tona lembranças boas e ruins, doces e amargas. O resultado disso é que o público sente empatia. Há uma troca. Os personagens te entendem. Você os entende.

Talvez querendo mostrar como nós repetimos alguns padrões ao longo da vida, a segunda temporada faz um paralelo com a infância e adolescência dos protagonistas comparando-as com suas ações no presente, um recurso não muito original, mas que rende ótimos momentos, como a trilogia dos episódios “Number One”, “Number Two” e “Number Three”, que foca nos diferentes dramas pessoais de cada um dos irmãos.

A série denota um carinho e uma atenção imensa com seus roteiros, já que todos são construídos de maneira muito delicada. No episódio “Number Two”, por exemplo, uma determinada cena com Kate poderia facilmente acabar em gritos e choros, mas inteligentemente o roteiro suprime a tal cena para mostrá-la justamente quando o público menos espera. São nesses detalhes que This is Us acerta.

Sterling K. Brown e Susan Kelechi Watson interpretam Randall e Beth
Sterling K. Brown e Susan Kelechi Watson interpretam Randall e Beth. Foto: Divulgação.

O único problema (ou que talvez vire um problema mais para frente) é que a série pode se esgotar rapidamente. É fato que nós já conseguimos entender como a série funciona e como aqueles personagens agem. Como são fortalezas de amor e resignação, não há espaços para conflitos longos, já que todos se perdoam rapidamente. A insistência em focar na morte de Jack também pode ter sido uma armadilha, agora que o grande e único mistério da série já foi resolvido. É aquela velha história: quanto mais você acerta, mais as expectativas aumentam e não há como saber até quando This is Us conseguirá cumprir a obrigação de fazer todo mundo chorar.

Mas, por enquanto, This is Us errou pouco. Com um segundo ano mais esperto e que abre um leque de opções para explorar a narrativa de seus personagens, a série consegue ser uma das produções mais delicadas da TV aberta no ar atualmente, sem ter a menor pretensão de ser uma drama sisudo ou muito elegante. É um fragmento da nossa vida ou do que já foi.

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Rodrigo Lorenzi

Rodrigo de Lorenzi é jornalista, formado pela PUCPR. Foi colunista de cinema na Gazeta do Povo e ganhador do prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense. Escreve sobre séries e TV em geral. Ainda não superou o fim de Breaking Bad.

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