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Gerson King Combo e Central Sistema de Som: a Black Rio em Rio Negrinho. Foto: Guylherme Custódio/A Escotilha.
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No início dos anos 70, em plena ditadura militar, o movimento Black Rio arrastava milhares de pessoas para dançar ao som da soul music. O que levava os negros para os mais diversos bailes black, entretanto, não era apenas a proposta de diversão, mas sim a valorização da identidade e da estética negra, bem como a liberdade de expressão política, cultural e intelectual.

Em 2017, Gerson King Combo, um dos ícones do movimento, e o grupo curitibano Central Sistema de Som, levaram um pouco de toda essa representatividade para o palco do festival Psicodália, reafirmando não só a importância do movimento carioca, mas também a relevância de manter viva a história da cultura negra no Brasil, propósito esse que está também presente no documentário O negro da senzala ao soul, desenvolvido em 1977 pelo departamento de jornalismo da TV Cultura de São Paulo.

E foi carregando a cultura negra da cabeça aos pés que Gerson King Combo recebeu a imprensa para uma entrevista coletiva antes de sua apresentação no evento realizado em Rio Negrinho (SC). Vestindo uma camisa do Point Chic Charm estampada com personalidades negras como Jorge Aragão, Bob Marley, Tim Maia, Michael Jackson, Luiz Melodia, Tony Tornado, Paulinho da Viola e James Brown, o rei se mostrava empolgado em participar do evento, ainda que uma bota ortopédica tentasse impedir os movimentos de quem não só saltou 58 vezes como paraquedista do exército, mas também fez com que milhares de negros se sentissem no céu ao assumir suas mentes e identidades.

Dizendo ter o objetivo de dar o seu melhor, o cantor que revelou ter um lado místico aflorado sentiu uma energia muito boa quando entrou na Fazenda Evaristo, o que o ajudou a mostrar disposição no alto de seus 73 anos, idade em que ainda encontra combustível para “agradar jovens de todas as idades e cores”.

Mas são as pessoas identificadas com a cultura negra com quem ele dialoga. E se recentemente o termo “empoderamento” ganhou terreno, na sua música ele sempre esteve em pauta. “Eu procurei dar autoestima para o negro periférico e por conta disso quase fui preso. Hoje em dia, isso é um pouco mais aceito porque não tem a ditadura, mas ainda tem resquícios dela”, diz.

‘Eu procurei dar autoestima para o negro periférico e por conta disso quase fui preso. Hoje em dia, isso é um pouco mais aceito porque não tem a ditadura, mas ainda tem resquícios dela.’

Usando esse poder da música é que o rei do soul fez o Psicodália dançar e abrir o seu coração para que ele entrasse acompanhando a Central Sistema de Som, que com sua mistura sonora promoveu um show dançante e poderoso. Por meio de músicas como “Silêncio das Marias” e “Hey Jones”, a Central mostrou que embora não estejamos mais em um contexto de ditadura, pelo menos não de maneira explícita, a música continua cumprindo seu papel de crítica e consciência política. Dessa maneira, o grupo curitibano apresentou um dos shows mais politizados do evento ao lado de Francisco, el Hombre, que dedicou a música “Muro em Branco” para os estudantes secundaristas que ocuparam as escolas em 2016 e promoveu uma alteração na letra de “Não vou descansar” para dizer que não se renderia “até o Temer derrubar”.

E justamente retratando esse poder de consciência trazido pela música, especialmente a do movimento ao qual Gerson King Combo fez parte nos anos 70, é que se dedica o documentário O negro da senzala ao Soul.

Produzido no calor do momento em que a Black Rio explodia nos bailes cariocas, o vídeo seria realizado inicialmente como uma reportagem que cresceu em duração e intensidade até se tornar um importante registro da memória negra no Brasil.

O motivo para isso se deve ao fato de que o audiovisual tinha o propósito de registrar a Quinzena do Negro, evento realizado na USP, que teve como principal articulador o sociólogo Eduardo de Oliveira e Oliveira, que promoveu o encontro não só para falar sobre o negro, mas também para o negro.

O audiovisual, entretanto, se tornou muito mais do que isso e acabou sendo tão ambicioso quanto o evento ao resgatar essa parte ainda apagada da história do Brasil. O motivo para que esses registros históricos ainda sejam escassos, apontado no vídeo por Beatriz Nascimento, é o fato de a história ter sido escrita por mãos brancas.

Para mudar esse quadro, a historiadora fala sobre a importância do resgate da história negra partindo da organização social do quilombo. E é desde esse período a que o documentário trata até chegar ao movimento da soul music brasileira, que ganha relevância quando o samba passa a fazer parte da programação das rádios e a classe média invade as quadras das escolas.

É então que nasce o movimento black, que luta contra o embranquecimento e vai em busca de uma afirmação cultural da identidade racial que se refletia no Brasil por meio do soul norte-americano, mas que acima de tudo tinha as raízes na África.

Criticado pelo fato de não ter uma autenticidade nacional, o movimento Black Rio tinha o objetivo de mostrar o poder do negro e a sua beleza, exercendo uma pressão contrária a uma parte da história contada sobretudo pelos brancos.

A presença de Gerson King Combo ao lado da Central Sistema de Som no palco do Psicodália é um dos momentos que fazem com que essa história não seja apagada.

Assista aos melhores momentos do show do Psicodália

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