À Margem

Cidade de Deus: tiros que erram e acertam

Um livro tem o poder de reduzir a violência? Paulo Lins acreditava que sim. Por outro lado, na visão do escritor, a literatura é sim capaz de transformar o sujeito. É o que ele revelou em palestra realizada na Biblioteca Pública do Paraná.

Em 1997, Paulo Lins lançou seu primeiro romance pela Companhia das Letras, uma das maiores editoras do país. Nas páginas da Folha de São Paulo, um dos maiores jornais do país, recebeu elogios de Roberto Schwarz, um dos maiores críticos literários do país.

Cinco anos depois, Cidade de Deus foi adaptado para o cinema e indicado em quatro categorias do Oscar, a maior premiação cinematográfica do mundo.

Paulo Lins, no entanto, não queria nada disso.

Cidade de Deus era para ser um trabalho político para diminuir a violência policial, a violência entre os jovens e o tráfico de armas”.

Não deu certo.

Sua obra ganhou o mundo, mas não ganhou a luta contra a violência.

“O problema é o tráfico de armas, porque droga não faz mal a ninguém. Existe tráfico em Nova York, em Barcelona em Londres, mas lá não tem essa matança que tem aqui”.

Esse foi o ponto de vista defendido por ele em sua palestra na Biblioteca Pública do Paraná na última terça-feira (07), como parte do projeto “Um escritor na Biblioteca” e das comemorações do Dia da Consciência Negra (20 de novembro).

Escrevi porque sou negro e a gente vive em um mundo racista. A briga hoje não é por petróleo, por território. É porque eu não acredito no Deus do outro.  A gente continua se odiando. Eu até queria escrever um livro sobre o amor, sobre sexo. Paulo Lins

Para que ele ocupasse o espaço, no entanto, não foi assim tão fácil: “Há 100 anos eu seria um escravo, mas a luta continua. Para eu estar aqui, agora, e para eu poder estudar, muita gente morreu, muita gente se ferrou, por isso é importante falar sempre da cultura negra”.

De fato, para que o bairro onde ele nasceu pudesse ser conhecido, muita tragédia aconteceu e coube a ele remontar essa memória como observa Roberto Schwarz no ensaio “Uma aventura artística incomum”:

“Veja-se por exemplo um assalto de motel que toma rumo bárbaro, com muitas mortes e perseguição policial. Na mesma noite, um homem se vinga da traição da amada cortando em pedaços a criança branca que ela dera à luz. Noutra esquina, um trabalhador decepa o rival com um golpe de foice. Não há ligação entre os crimes, mas no dia seguinte Cidade de Deus saía do anonimato e passava a figurar na primeira página dos jornais como um dos lugares violentos do Rio de Janeiro. A importância dos bandidos aumenta aos olhos dos outros e deles próprios. O assalto ao motel, que dera em chacina por nervosismo dos ladrões, transformava-se num feito notável, aumentando a autoridade dos bandidos e o terror que inspiram. Estava formado o novo mecanismo de integração perversa: as piores desumanidades adquirem sinal positivo uma vez que alcancem sair na mídia, uma espécie de aliada para romper a barreira da exclusão social”.

Anos mais tarde, no entanto, o nome Cidade de Deus passou a ser conhecido por conta de um livro e, mais ainda, de um filme.

Sobre a cena citada por Schwarz em que um bebê é decepado por conta de uma vingança, o escritor carioca revela ter se sentido mal por ter que incluir o acontecido no livro. Para poder fazê-lo, inspirou-se em Dostoievski, mostrando que a arma usada pelos moradores da Cidade de Deus passou a ser a literatura, mas sem abdicar da criminalidade:

“Eu roubo muito de outros escritores”.

Apesar de gatunar o autor russo e outros como José Lins do Rego, para compor a sua obra não bastou ler e escrever. Foi preciso ouvir. E ouvir aqueles que quase nunca têm voz. Na própria Cidade de Deus e na cadeia tornou-se o interlocutor dos bandidos, para desespero da sua mãe.

Se esse foi o processo para escrever o seu romance de estreia, em Desde que o Samba é Samba foram outros métodos e motivações: “Escrevi porque sou negro e a gente vive em um mundo racista. A briga hoje não é por petróleo, por território. É porque eu não acredito no Deus do outro. A gente continua se odiando. Eu até queria escrever um livro sobre o amor, sobre sexo…”.

No entanto, se ele mesmo aponta o fato de que as guerras não se dão mais por disputa territorial, por outro lado, revela que escreveu sua obra de 2012 justamente para demarcar o território da cultura negra. Isso porque ele aponta que com o fim da escravidão a inserção do negro não se deu por meio do trabalho, mas sim pela via da cultura.

E foi justamente a cultura que fez com que ele mesmo se tornasse a pessoa que é: “Me transformei através da leitura. Só ela é capaz de quebrar preconceitos como o machismo, a homofobia e o racismo. O livro salva”.

Dessa forma, ainda que o seu livro não tenha diminuído a violência como o autor planejava, a obra seguramente conseguiu transformar muitos leitores em pessoas melhores.

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Guylherme Custódio

Guylherme Custódio nasce e se cria em Curitiba desde 1987. Graduado em jornalismo, atualmente cursa letras na Universidade Federal do Paraná e atua na FG1 Comunicação Interativa. Desde o começo dos anos 2000 acompanha de perto o movimento hip-hop. Como escritor, tenta manter o blog “Di-Vagá”.

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