O voo do albatroz

O voo do albatroz

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O voo do albatroz
Foto: Pixabay.
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para Monique, Carla e Everton.

Os carros do ano estacionados ao lado de prédios com alguns séculos de existência proporcionam certo contraste a essa paisagem histórica em que impera o cheiro típico de um cais, às voltas com as coreografias matinais cheias de turistas, bugigangas, redes e pescados.

O mercadão de frutas, verduras e bebidas típicas ainda está às moscas, o óleo frio na barraca de pastel indica que a cidade ainda não acordou completamente. Ou ainda não foi dormir, como sugere o bêbado que passa com um latão de Skol rumo à ponte que leva à Ilha de Valadares.

Paranaguá arde sob o sol inclemente de março enquanto quatro amigos aguardam a preparação do barco que os levará para Guaraqueçaba, uma região um tanto escondida ali no litoral paranaense.

Nas mochilas, garrafas de bebidas tilintando ecos de uma adolescência distante, alheias ao fato de que não serão esvaziadas completamente nos próximos dias. Culpa de um desacordo entre o fígado e a mente, imposto pela idade. 6 anos antes, quem sabe, alguém perguntaria se beber antes das 11h seria muito alcoolismo, todos discordariam e então chegariam devidamente trôpegos ao destino.

Fazendo as vezes de um beija-flor, a ave marinha controla o tempo e o espaço com as suas asas preto-e-brancas.

Sóbrios e responsáveis, embarcam numa viagem de duas horas e meia que parecem durar cinco, mas que ainda assim compensa tendo em vista a alternativa: dezenas de quilômetros de carro numa estrada de chão esburacada que parece não ter fim ou ser o próprio fim, em si.

Em algum ponto entre o porto e o destino, a paisagem composta por uma baía calma emoldurada por diversas ilhas, parece parar. O som do motor e as marcas do singrado na água indicam movimento, porém, o mundo segue imóvel, pois ali no céu está um albatroz.

Fazendo as vezes de um beija-flor, a ave marinha controla o tempo e o espaço com as suas asas preto-e-brancas, pois há um momento, que pode durar um segundo ou uma vida a depender do olhar, em que o deslocamento cuidadoso de caçador, planando rente às ondas, é reduzido ao limite.

Com pleno controle da desaceleração e da resistência do ar, o pássaro de envergadura enorme permanece completamente imóvel por alguns milésimos de segundos com as asas abertas – belo e absurdo – como que aguardando o clique do fotógrafo, antes de girar o corpo e descer para o mergulho, feito um avião militar partindo para ataque.

Eis um pássaro submerso, unindo céu e mar numa costura fina feita de movimento e poesia. Silêncio, o sol se impondo através das frestas da embarcação. Quando o animal emerge com as penas molhadas e o bico vazio, o mundo volta a respirar de forma mais serena e qualquer possibilidade de pressa perde o seu sentido. O peixe escapou, mas ali onde não há chão, ainda há um imenso caminho cheio de possibilidades por todos os lados, um mundo que se desenha com as linhas de refração na água e com a imprecisão dos contornos das nuvens logo acima. Aos poucos, o albatroz vai se distanciando até se tornar apenas um pontinho minúsculo em forma de “v” numa pintura.

O motor do barco diminui a sua potência e logo mais adiante os quatro amigos enxergam a praça central de Guaraqueçaba se aproximando e com ela uma sensação boa de explorar e compartilhar o mundo com aqueles que amamos. Seria um bom momento para aprender a parar o tempo, tal como um albatroz.

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Eder Alex dos Prazeres é formado em Letras pela Faculdade Educacional Araucária (2007) e pós-graduado em Literatura Brasileira e Ensino da Língua Portuguesa pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (2008). Trabalha como professor de Comunicação e de Literatura (FACEAR) e também como supervisor administrativo (Hospital Pequeno Príncipe). Tenta compensar a incoerência de sua vida profissional, bem como sua inabilidade de convívio social, escrevendo sobre livros e filmes em seu blog. Mas é bem possível que isso tudo seja mentira e no fundo ele passe o dia inteiro jogando videogame e assistindo ao Netflix.

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