Helena Perdiz

Geladeira

O entregador tocou a campainha. Ela abriu a porta feliz.

– Finalmente! Boa tarde.

– Boa tarde. É senhora Sarah, né?

– Sim, porém não.

– Quê?

– Eu sou a Sarah, mas essa embalagem gigante atrás de você não é minha de jeito nenhum. Eu comprei um videogame.

– Não, aqui tá dizendo que a senhora comprou uma geladeira.

– Filho, quem fez a compra fui eu, eu sei o que eu comprei.

– Mas tá na nota, olha.

Mostrou a nota.

– A nota tá errada, moço, preciso que você leve de volta.

– Eu não posso levar de volta! Recebo por entrega, preciso voltar com o caminhão vazio.

– Cê tá maluco? Não vou deixar você colocar essa geladeira aqui dentro, eu não comprei uma geladeira, quero meu Playstation.

– Então eu deixo aqui no hall, mas vou precisar da sua assinatura.

– Cacete! Eu não vou assinar o recibo de um negócio que eu não comprei.

– Mas depois a senhora se resolve com a loja.

– Você é a loja!

– Eu sou o entregador da loja.

Deu um chute na geladeira, vermelha de raiva.

– O entregador da loja representa a loja.

– Não, eu represento a entrega do produto da loja.

– Que está errado!

– Mas aí a senhora tem que reclamar com quem mandou colocar a geladeira no meu caminhão.

– Eu quero que se foda todo mundo: você, o seu caminhão, a pessoa que colocou a geladeira no seu caminhão, o frentista do posto que encheu o pneu do seu caminhão, a família do dono da empresa que fabricou o seu caminhão. Todo mundo. Eu não vou ficar com uma geladeira que não é minha, você vai levar de volta.

– Não vou.

– Você vai.

– Não.

Ficaram alguns minutos sem pronunciar uma palavra, um olhando para o outro.

– Eu vou fechar a porta e você vai embora com essa geladeira.

– Eu vou falsificar sua assinatura e deixar a geladeira aqui.

– Oi?

– Você não tá colaborando, moça.

– Colaborando com o quê? Você trouxe uma coisa que eu não comprei!

– Mas custa deixar na sua casa até resolver?

– Custa! Meu apartamento é minúsculo. E se eu não conseguir resolver e tiver que ficar com duas geladeiras?

– Mas será que é tão ruim assim ter uma geladeira nova?

Sentou no chão, encostada na porta aberta.

– Eu quero que se foda todo mundo: você, o seu caminhão, a pessoa que colocou a geladeira no seu caminhão, o frentista do posto que encheu o pneu do seu caminhão, a família do dono da empresa que fabricou o seu caminhão. Todo mundo. Eu não vou ficar com uma geladeira que não é minha, você vai levar de volta.

– Não é ruim. É até bom, minha geladeira é velha, deve ter uns 15 anos. Só que não é o que eu comprei, entendeu?

– E mesmo com uma geladeira velha a senhora investiu em um videogame?

– Ah, pronto, vai me dar lição sobre finanças.

– Eu tô falando o óbvio. Você tá aí com uma geladeira antiga, que gasta energia pra caramba, que provavelmente a senhora tem que descongelar tirando da tomada toda semana, mas tá usando seu dinheiro pra comprar coisa que dá pra viver sem.

– Dá pra viver sem, mas eu não quero. É uma escolha minha.

– Enquanto isso tem uma geladeira inox parada na sua porta. E se for uma oportunidade?

– É inox?

– É inox.

Levantou.

– Não pensa que eu tô caindo na sua conversa porque eu não tô, só perguntei porque eu acho bonita a cor. Direito é direito, oras, eu tenho o direito de receber o produto que eu comprei.

– Sei lá, não é todo dia que uma geladeira inox aparece na porta da sua casa.

– E não é todo dia que eu compro um Playstation e recebo uma geladeira.

– Às vezes é a vida dando um sinal. O preço é basicamente o mesmo.

– Tem aquele dispenser de água, pra não precisar usar filtro separado?

– Tem. Quer tirar da caixa pra dar uma olhada?

– Não, era só curiosidade.

– Tá, mas se quiser ver eu desembalo.

Começou a fechar a porta.

– Larga aí essa bagaça, no hall mesmo. Você me venceu pelo cansaço.

– A senhora vai assinar o recibo?

– Vou, dá aqui.

– Ótimo!

Assinou o recibo. Se despediu e fechou a porta.

Meia hora depois, interfonou na portaria.

– Oi, eu preciso de alguém pra me ajudar a trocar a minha geladeira velha por uma nova, pode chamar o zelador? Claro, eu espero. Sim, é chiquérrima, inox, aquela com dispenser de água, sabe?

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Helena Perdiz

Helena Perdiz tem 28 anos e é publicitária, formada pela PUC-Campinas. Maníaca por séries, apaixonada por livros e viciada em Xbox. Escreve crônicas desde a época em que valiam nota na escola.

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