Helena Perdiz

Sabonete

O sabonete estava acabando, mas acabando tanto que parecia um pedaço de folha sulfite. Não dava pra encarar outro banho dessa forma, então decidi ir ao mercado perto de casa, tarde da noite – mas, antes, tive o prazer de jogar o sabonete quase acabado no lixo. Pare pra pensar: praticamente tudo o que a gente descarta é feio e fedido – papel higiênico, resto de comida, álbum do Negritude Jr. que a gente percebeu que não quer mais guardar -, mas o sabonete é liso e cheiroso. É o melhor lixo que a gente tem, então o momento de descartá-lo precisa ser apreciado, precisa ser sentido, cheirado. Foi bonito e marcante.

Fui até a garagem e, ao chegar em frente ao carro, fiquei estático por um tempo, sem acreditar no que havia ali. Fiz o que qualquer adulto maduro faria: tirei o celular do bolso e liguei para a minha mãe.

– Oi, filho.

– UM GANSO, mãe. Um-gan-so.

– Filho, você tá no bar? Você tá bêbado? Ai, mas se estivesse aqui eu já ia pegar a chinela do seu pai pra dar na sua cara!

– Eu não tô bêbado, mãe. Simplesmente tem um ganso em cima do meu carro, no capô.

– O quê? Onde?

– Dentro do estacionamento do prédio.

– Meu Jesus amado! Liga pra alguém.

– Eu liguei.

– Pra quem?

– Pra você, ué! Mãe é mãe, sempre sabe o que fazer.

– Corre na portaria e chama o segurança.

– Correr? Parece que nunca viu Faustão! Ganso correndo atrás de gente é um clássico das Vídeo Cassetadas. Eu tô parado pra não correr riscos, enquanto ele me encara fixamente.

– Filho do céu, eu não sei o que fazer, não. Como que esse bicho foi parar aí?

– Cacete! Ele abriu as asas, é uma ameaça. Eu vou morrer. Todo mundo sabe que os gansos são os animais mais filhos da puta da atualidade, ele vai me matar sem dó.

– Ah, mas eu vou até aí lavar essa boca com sabão!

– Venha! Mas venha com sabonete, porque aí eu não preciso mais ir até o mercado e a gente resolve tudo.

O ganso desceu do carro.

– Ele tá no chão agora, continua me olhando.

– Vai se afastando, bem devagar. Até conseguir voltar para o elevador.

– Estou tentando.

– Tá, continua.

– ELE COMEÇOU A ANDAR! TÁ VINDO NA MINHA DIREÇÃO! PUTA MERDA!

– Aumenta um pouquinho a velocidade.

– Ah, mas eu vou até aí lavar essa boca com sabão!

– Venha! Mas venha com sabonete, porque aí eu não preciso mais ir até o mercado e a gente resolve tudo.

– ELE AUMENTOU TAMBÉM! ELE TÁ CORRENDO! MÃE, EU TÔ CORRENDO TAMBÉM!

Minha mãe caiu numa gargalhada tão, mas tão imensa, que demorou pra perceber que eu havia parado de responder. Tinha desmaiado de medo.

Acordei no hospital, ela ao lado da cama.

– Acordou a Bela Adormecida.

– Mãe, tá tudo bem comigo? Ele me machucou muito? Eu vou me recuperar?

Comecei a olhar para os braços, procurando pelos estragos.

– Moleque imbecil, nada aconteceu, você só passou vergonha. Ele ficou lá paradinho até a ambulância chegar. Seu ganso era um pato.

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Helena Perdiz

Helena Perdiz tem 28 anos e é publicitária, formada pela PUC-Campinas. Maníaca por séries, apaixonada por livros e viciada em Xbox. Escreve crônicas desde a época em que valiam nota na escola.

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