Henrique Fendrich

A Lua e Júpiter

Eu sei que normalmente não adianta criar expectativa, já que todos os grandes fenômenos astronômicos em Curitiba se dão sob uma espessa camada de nuvens, mas a verdade é que dessa vez eu vi, meninos, vi muito bem, a lua praticamente cheia e, acima dela, coisa de dois ou três dedos, uma estrela brilhante que não era estrela coisíssima nenhuma, mas o planeta Júpiter. Júpiter! Visto a olho nu aqui do meu condomínio! Ah, meus amigos, confesso que fiquei muito tempo olhando com cara de bobo para tudo aquilo, como é que pode, eu, vendo Júpiter em casa!

Claro que não foi todo mundo que compartilhou do meu entusiasmo, isto é, uma ou outra pessoa até foi lá olhar depois que eu avisei, e olharam, viram, enxergaram, e até acharam interessante, mas o que não dá é para ficar o tempo todo parado vendo duas esferas no céu, não é? E voltaram a fazer o que tinham interrompido. Mas eu não! Eu saí de casa e procurei um lugar bem isolado com o claro objetivo de namorar, e namorando fiquei, e só não cheguei a uivar porque milênios de domesticação já haviam refreado em mim esses instintos mais primitivos.

Só não cheguei a uivar porque milênios de domesticação já haviam refreado em mim esses instintos mais primitivos.

De certo, também não tem nenhuma novidade no fato da Lua se encontrar com Júpiter, os dois devem fazer isso volta e meia, mas devo dizer que não faz muito tempo que ando interessado nessas coisas, por muito tempo havia um véu diante dos meus olhos e eu, no meu alheamento, sequer imaginava que pudesse existir algo acima de mim. Sou um novato, sou uma criança que precisa de muito leite, e a quem foi oferecida toda a Via Láctea.

E, meu Deus, que coisa incrível, eu posso falar daqui de Curitiba com pessoas de diferentes partes do Brasil e elas olharão para o céu e verão a mesmo cenário, é a mesma Lua, é o mesmo Júpiter! A Lua ainda é, em nossos tempos, um dos mais eficazes meios de comunicação. Esta também é uma noite incrivelmente estrelada para os padrões curitibanos, tanta coisa para olhar, ah, o Calvin estava certo, se as pessoas saíssem para olhar as estrelas…

Mas Júpiter também já é demais. Eu vejo apenas um pequeno ponto luminoso, mas me perco imaginando lonjuras, aquela imensidão toda, mais de mil Terras dentro de Júpiter e ainda sobra espaço. Trata-se de um eficaz aspirador de asteróides, e quem é que pode garantir que ainda estaríamos por aqui se não fosse a sua intervenção? Não tenho um telescópio, não tenho sequer um binóculo, sou incapaz de identificar a grande mancha de Júpiter, eterna tempestade a revolver a sua atmosfera. Tudo o que tenho é a minha fé de que Júpiter seja aquilo que vejo.

Quatrocentos anos tem a ciência moderna, e nesse período a gente já aprendeu um bocado de coisas sobre o sistema solar, sabemos dizer com certa precisão do que os corpos são feitos, quais leis atuam sobre eles, como eles se comportam e até como se comportarão! E, no entanto, ainda é o mesmo sentimento religioso, o mesmo desejo de adoração, a vontade de pertencimento a algo maior, que nos toma diante da Lua, a imensidão do Cosmos…

A essa altura, já tem muita nuvem na frente da Lua e não dá mais para ver nada. Ê, Curitiba, hein? Mas não dá nada, dessa vez eu vi. E olha, que coisa linda, viu?

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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