Henrique Fendrich

Se nada der certo…

Eu viro hippie. Mentira, eu não sei fazer artesanato. Paz e amor sim, artesanato não. Se nada der certo, eu mando e-mails desesperados e faço apelos no Facebook. Venço resistências, falo com pessoas que não gosto, falo com pessoas que não gostam de mim. Se nada der certo, eu procuro aquela amiga que sumiu da minha vida. Não que isso ajude muita coisa. Vou querer jogar o meu problema nas costas deles, como se já não tivessem os seus próprios para se preocupar. Eles podem ter boa vontade, podem sugerir uma coisa aqui, outra ali, mas o problema maior, o projeto da minha vida, continuará sendo meu, continuará dependendo de mim – é aí que o bicho pega.

Se nada der certo, eu começo de novo. Mas, claro, isso é muito mais um modo de dizer, nem sempre a gente tem condições de começar de novo, às vezes falta dinheiro, às vezes sobra idade mesmo – sim, porque depois de certo tempo já é bem mais difícil querer começar outra vez. Se nada der certo, eu provavelmente vou empurrando com a barriga, para ver até onde é possível ir quando não se tem a menor ideia de onde se pretende chegar. Na certa ainda vou demorar a admitir que deu tudo errado.

Se nada der certo, eu começo de novo. Mas, claro, isso é muito mais um modo de dizer, nem sempre a gente tem condições de começar de novo.

Apelo para a religião, certeza que apelo para a religião. Não digo que eu vá até a Igreja Universal, uma dessas que prometem prosperidade. Isso não. Vou atrás de uma daquelas igrejas mais equilibradas, em que ninguém cai no chão. Uma batista, uma presbiteriana. A própria católica, talvez eu volte a assistir a missas. Mas vou ficar lá na minha, não quero me tornar membro ou me envolver com o ministério. O que eu quero é um contato com os céus, o reino de Deus pode estar no meio de nós, mas, se nada der certo, eu tento, sim, procurá-lo em uma igreja.

Vou atrás da assistência social, sei lá. Na rua é que não vou morar. Não é que eu tenha algum preconceito contra a rua, apenas duvido da minha capacidade para sobreviver no meio dela. Mas também é verdade que na hora a gente aprende, na hora a gente tira força nunca se sabe de onde. Mendigo não viro não, antes pedir dinheiro na rua do que virar mendigo – essa é do Chaves. Posso vender balinha no ônibus, boa tarde, pessoal, vocês desculpem estar atrapalhando a viagem de vocês… Quem sabe aí eu até perca a timidez. Sim, se nada der certo eu perco a timidez. Esqueço orgulho, esqueço amor-próprio. Ao diabo com tudo isso. Dependerei da caridade alheia.

Não acabo com a minha vida. Isto é, acho que não. A gente nunca sabe, até a hora em que o mundo desmorona aos nossos pés, até a hora em que isso é mais do que uma metáfora. Mas é provável que até o último instante eu ainda acreditasse em algum resgate, uma tábua de salvação, não é possível, o mundo não é assim, as coisas não terminam desse jeito, uma hora a justiça será feita, uma hora a sorte vira e as coisas dão certo, Deus, o Universo, seja lá o que for, vai intervir em meu favor. E a esperança desse dia me faria suportar muitos dias difíceis e situações degradantes. Não sei até quando, quem sabe um dia eu me enchesse, afinal eu não teria ninguém…

Arre, onde eu fui parar! Se nada der certo, eu consulto essa crônica e vejo o que foi que eu fiz de verdade.

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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