COMPARTILHE
Ela não queria ver
Foto: Reprodução.

Ela se virou, se ajeitou na cadeira, como todos nós, diante da televisão. Haveríamos de assistir a um filme, um filme daqueles que levam “guerra” no nome, e por isso a excitação era geral. Não demorou até que começassem as cenas de selvageria, mutilações, ataques sangrentos. Era, enfim, aquilo que queríamos ver, e por isso prestávamos a máxima atenção, mal tirando os olhos da tela. Mas foi em um desses momentos, quando desviei o olhar de toda aquela violência, que pude perceber os movimentos dela.

Ora, a cada vez que armas, tiros e sangue apareciam no filme, ela abaixava a cabeça, ou olhava para o lado, olhava para qualquer lugar – menos para a televisão. Ela não queria ver, não, não podia ver aquilo. Mas também não queria que ninguém percebesse essa sua fraqueza, o fato de não poder tolerar a violência, mesmo a violência que é inventada para o nosso deleite. Disfarçava, então, mas disfarçava mal e, se não estivessem todos tão compenetrados na trama, creio que mais gente teria percebido.

Enquanto tentava escapar de todo aquele mal, ela sorria nervosamente, e penso que se alguém a interpelasse, perguntasse o motivo de toda aquela agitação, ela iria se justificar, ainda rindo, dizendo que era uma boba mesmo, que não ligassem para ela. Mas o filme continuava, e às vezes ela achava que já haviam terminado as cenas de selvageria, arriscava olhar de novo para a tela, mas, qual, não havia acabado ainda, e ela via coisas que não queria. Seus olhos, então, corriam desesperadamente para longe daquilo, para bem longe da estupidez que o vídeo exibia.

Seus olhos, então, corriam desesperadamente para longe daquilo, para bem longe da estupidez que o vídeo exibia.

Tanta delicadeza me comovia e, em pouco tempo, também eu já não prestava atenção ao filme, apenas ao grande desconforto daquela menina. Eu a havia conhecido há muitos anos, éramos ainda crianças, e calhou que nos sentássemos um ao lado do outro durante as aulas de catequese. Fomos amigos, pode-se dizer, ainda que amigos que só se viam duas horas por semana. Naquela época, ela ainda usava óculos, uns óculos grandes, que imagino não provocar nela a menor saudade. Hoje ela está tão bonita, sorri tanto, passa uma imagem tão boa, que não sei como não previ a sua reação diante da carnificina.

Só que hoje a gente já não é tão amigo assim, na verdade, desde que nos revemos, sequer chegamos a falar daqueles tempos em que ouvíamos juntos as verdades do Cristo. Ah, aquilo sim dava gosto de ouvir, dar a outra face, perdoar os inimigos, não resistir! E, no entanto, ali ao nosso redor, embevecidos pela barbárie e pela crueldade da história, estavam muitos cristãos, muita gente que ouviu a mensagem de paz, mas que, tivessem uma oportunidade e uma razão, fariam eles próprios a guerra.

Eu amei aquela menina, amei como se ama uma irmã, e quis guardá-la e protegê-la de toda a maldade do mundo, que ela nunca se tornasse uma cínica, que nunca procurasse razões para justificar a sua própria bestialidade. Aqueles olhos, aqueles olhos que fugiam, me devolveram a esperança, quem sabe ainda dê certo, quem sabe um dia as coisas ainda caminhem bem – quem sabe, um dia, já não haja tantos motivos para se horrorizar e fugir.

COMPARTILHE
Artigo anteriorCuidado: interior frágil
Próximo artigoPesadelo feminino
Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA