Henrique Fendrich

Matei meu professor de lógica

“Fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.”
Fields of Oak

Nasci, sob protestos, em uma quarta-feira de sol, no mês de maio. Fui o primogênito de uma antiga linhagem de colonos bávaros. Minha infância foi como a de todas as pessoas, fugindo de casa com a vizinha, limpando as costas com o desentupidor de privada. Aos 6 anos de idade, eu já lia português como um nativo. Crescia em estatura e graça diante de Deus e dos homens. Aos 12, já treinava nas categorias de base do São Paulo Futebol Clube, sendo apontado pela crítica especializada como o novo Denílson. Mas descobri, durante as concentrações, que tinha vocação mesmo era para o pingue-pongue. Acabei convencido por Cláudio Kano, que havia morrido alguns anos antes, a ser o seu sucessor.

Não conseguindo vaga para as Olimpíadas de Sidney, pendurei a raquete e decidi tentar a sorte como vocalista de uma banda de rock. Foi quando eu me mudei para Seattle, a fim de montar uma banda grunge. A ideia não foi para frente, pois a moda já era o nu metal. Por essa época, eu tinha um cabelo loiro, liso e comprido, além de muitas marcas de agulhas pelos braços. Voltando ao Brasil, estabeleci-me no Rio Grande do Sul, onde fiz certo sucesso com músicas cerebrais recheadas de aliterações. Já era anarquista, o que não me impediu de casar no cartório com a enfermeira que me tratou durante uma overdose.

Voltando ao Brasil, estabeleci-me no Rio Grande do Sul, onde fiz certo sucesso com músicas cerebrais recheadas de aliterações. Já era anarquista, o que não me impediu de casar no cartório.

Esse casamento, no entanto, não sobreviveu à lua de mel, sendo muito mais divertido na minha imaginação. Acertei os papéis do divórcio e decidi me mudar para Curitiba, cidade que pertencia à minha família desde os anos 1600. Ali me formei em Ciências Políticas e cheguei a iniciar o curso de Letras, que só não conclui por ser o único homem da sala. Penei muito para conseguir emprego, até ser aceito como fotógrafo do necrotério. Fazia, durante as horas vagas, pequenas historietas sobre o cotidiano do lugar, o que chamou a atenção de um jornalista que ali esteve, buscando, na geladeira, o seu tio-avô. O jornalista me levou ao Estado de São Paulo, onde passei a assinar uma coluna. Em pouco tempo, eu galguei as posições até chegar ao cargo de Cronista-Chefe. Foi quando recebi proposta do Washington Post e retornei aos Estados Unidos. Mas era a época em que o Brasil sediava todos os eventos de mundo, de sorte que virei correspondente do jornal em Brasília.

Lá eu tive contato com deputados e senadores, o que, na prática, significa que tive o meu nome envolvido em diversas maracutaias. Enojado daquele ambiente, decidi me converter e, não muito tempo depois, me tornei pastor evangélico, de cariz pentecostal. Fui enviado em missão para Altamira, no Pará, onde logrei chegar depois de duas quedas de avião, e lá me tornei, já na primeira semana, refém de índios, conseguindo escapar depois de provar, pela minha árvore genealógica, que tenho sangue indígena na nona geração. Retornando à capital, tive o dissabor de ver meu nome citado em uma delação premiada da Lava-Jato. Fui preso e enviado de volta a Curitiba, e dali para o Complexo Médico-Penal de Pinhais, depois que apresentei exames de sangue comprovando que sofro de hipotireoidismo.

Aqui estou até hoje, tenho verdades que estremeceriam a nação, mas atualmente tenho me dedicado mais a ler, pois é coisa sabida que quem mais lê no Brasil são os presidiários. Leio uma média de três a quatro livros por dia. O último foi um do Campos de Carvalho.

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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