Henrique Fendrich

Menino espera o pai

Era um fim de tarde banal, mas seria evocado durante toda a sua vida. O menino aguardava o sinal que determinava o término do dia de aula. Como de hábito, havia começado a guardar o material alguns minutos antes, mas bem devagar, uma coisa de cada vez, para que a professora não se apercebesse. O seu objetivo era estar pronto quando o sinal tocasse, de maneira que fosse só se levantar e ir embora. Não é que tivesse alguma razão para se apressar. Acontece que era uma criança, eis tudo. Lá fora era mais livre, ele podia brincar à vontade com os seus amigos, ele podia brincar até com os amigos de outras salas. E então, quando o sinal finalmente tocou, ele correu para a porta como quem corre para a liberdade.

Mesmo que tivesse pressa, ele sabia que ainda teria que esperar até que o pai chegasse para buscá-lo. O pai vinha sempre a pé, porque as coisas por ali não eram tão longe assim, o que não significa que se pudesse deixar as crianças andarem sozinhas na rua. Mas o menino nem sentia o tempo de espera, de tão entretido que ficava com os amigos, correndo de lá para cá, por vezes chutando uma bola. Quando o pai chegava, ele até lamentava um pouco, porque assim a brincadeira era interrompida. Durante os 10 ou 15 minutos, em média, que ele precisava esperar, ele se divertia e mal via o tempo passar. De repente, ele olhava para o lado e via o pai, dizendo o seu nome.

Isso acontecia também com os outros. Volta e meia aparecia um pai e levava um companheiro de brincadeiras. Aquele era um fim de tarde banal, de modo que tudo se repetiu da mesma maneira. Aos poucos as crianças foram indo embora, as vans que faziam o transporte escolar foram se afastando e a escola ia se esvaziando. O menino brincava distraído até se dar conta de que o seu último amigo havia ido embora. Ainda havia outras crianças por lá, mas ele não as conhecia. O pai estava atrasado, outra vez! De fato, não era a primeira. De vez em quando, o pai se enrolava com alguma coisa do trabalho, com alguma compra de última hora na farmácia, ou algo do tipo, e o resultado era ele tendo que esperar mais do que estava acostumado. Meio aborrecido, sentou-se em um banco, sem saber como passar aquele tempo.

Passaram-se mais alguns minutos. Aos poucos, as outras crianças também foram indo embora. Ele olhou para o relógio: meia hora! Aí estava um atraso que batia o recorde. E então ele se viu como a única criança em todo o colégio que continuava a esperar o pai. Ficou irritado e pensou em começar a fazer o caminho sozinho, ir ao encontro do pai. Mas tinha certeza que levaria uma bronca se fizesse isso. O pai ainda achava que ele era uma criança que não sabia se cuidar na rua. Resolveu esperar mais um pouco. Pensou que se o pai tivesse lhe dado um celular, que há muito tempo ele pedia, já teria ligado para ele e descoberto a razão do atraso. Havia amigos da idade dele que já tinham celular. Meu Deus, que demora!

E então ele se viu como a única criança em todo o colégio que continuava a esperar o pai.

De vez em quando aparecia um professor, que havia ficado mais tempo na escola. Os professores passavam por ele e alguns perguntavam o motivo da sua espera. “Ele já vem, não se preocupe”, tentavam consolar. Houve uma professora que fez mais do que isso. Perguntou o número do telefone do seu pai e ligou para ele, mas caiu na caixa postal… E então ela também se foi, pedindo que ele entrasse e fosse até a Coordenação. Mas ele não queria entrar, ele queria ficar ali até o pai aparecer. Dentro de si, uma dúvida já havia se instalado: será possível que me esqueceu?

Levantou-se, começou a andar de lá para cá, e cada vez tinha mais vontade de começar a caminhar para casa, mesmo sozinho. Talvez devesse fazer isso mesmo. Era uma pena, mas o pai não iria aparecer nunca. O pai esteve a algumas quadras de distância, mas deitado no asfalto, de onde jamais se levantaria.

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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