Henrique Fendrich

Pedaços de crônicas que não fiz

1. Uma das evidências da teoria da evolução é o pernilongo curitibano. O pernilongo curitibano, depois de longos séculos submetido às temperaturas mais inóspitas, aprendeu a suportar o frio. Era isso ou a extinção da espécie. O resultado é que hoje você pode se meter embaixo das cobertas numa noite em que a temperatura não passa dos 5 graus e, mesmo assim, ter um pernilongo zumbindo no seu ouvido a noite toda.

2. O primeiro amigo virtual que eu tive não foi pelo computador, mas pela carteira da escola. Um dia encontrei a minha carteira rabiscada com trechos de músicas do The Doors. Imaginei que tivessem sido escritos por quem sentava de manhã no mesmo lugar em que eu sentava à tarde. Resolvi puxar assunto com o cara. Falei que achava o Jim Morrison parecido com o Guga (ainda acho). Ele viu, e no outro dia perguntou se eu realmente sabia quem era o Jim Morrison. Confirmei, disse que gostava de “Break on through”, e assim a gente engatou uma conversa pelas carteiras da escola. Durou algumas semanas essa conversa e eu nunca soube quem estava do outro lado. Veio o fim do ano e então a gente teve que parar de depredar o patrimônio público.

3. A socialite Paris Hilton tem um defeito muito feio, que é exatamente o de se chamar Paris. Se ela se chamasse Itapecerica da Serra, por exemplo, seria estranho, mas seria bonito. Eu, se pudesse escolher, me chamaria Santo Antônio da Platina. Só em último caso escolheria Paris, Londres ou Nova Iorque.

4. E o Senhor levou Abraão para fora e disse:
– Olha agora para os céus e conta as estrelas, se as podes contar. Assim será a tua descen…
– Quatro!
– Quê?
– Tem quatro estrelas, já contei.
– Mas não é possível, Abraão!
– É tudo que enxergo daqui, Senhor. Veja o Senhor mesmo.
– Droga, esqueci que estávamos em Curitiba.

5. Há um conto de Ionesco, chamado “Para preparar um ovo cozido”, que é uma grande tiração de sarro do autor, passando a receita como se fosse a um débil mental (ele diz, por exemplo, que as cascas não são comestíveis). Pois bem, na cozinha eu valho mais ou menos o mesmo que um débil mental, mas, modéstia à parte, a partir deste conto, eu preparei um ovo cozido. Obrigado, Ionesco (mas a minha mãe viu defeitos na sua receita).

Se há uma coisa capaz de unir todos os brasileiros é a certeza de que os tradutores de títulos de filme irão para o inferno.

6. Se há uma coisa capaz de unir todos os brasileiros é a certeza de que os tradutores de títulos de filme irão para o inferno. Já pensaram se esses caras resolvessem adaptar também os títulos de livros? Ficaria mais ou menos assim:

1984: Big Brother – O Livro
A metamorfose: A barata que saiu caro
A revolução dos bichos: Uma fazenda muito louca
Anna Karenina: O preço da traição
As viagens de Gulliver: Um gigante muito doido
Crime e castigo: Desejo de matar
Dom Quixote: De médico e louco todo mundo tem um pouco
Frankenstein: Olha quem está vivendo agora
Guerra e paz: Deu a louca na Rússia
Moby Dick: Uma baleia nada franca
O processo: Nas garras da lei
Os irmãos Karamazov: Confusão em família
Os miseráveis: O bom ladrão
Romeu e Julieta: Família, família, amores à parte
Werther: Atração fatal

7. Só vejo uma saída para o Brasil: uma grande e incontrolável crise de riso, como a que atingiu a Tanzânia em 1962, quando três meninas começaram a rir e em pouco tempo toda a região estava rindo freneticamente. Riam porque não podiam deixar de rir, riam porque o stress precisava sair por algum lugar. Se eu soubesse qual foi a piada, eu a repetiria de bom grado.

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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