Henrique Fendrich

A redenção da bicicleta

Não casei, mas também não comprei uma bicicleta, foi presente da minha mãe depois que me roubaram a antiga. Em cima dela, eu mato o sedentarismo, duas vezes ao ano. A bicicleta, afinal, não me acompanhou quando mudei de cidade, continuou na casa materna, acumulando pó. Toda vez que a vejo, encontro os pneus vazios. E geralmente tem alguma coisa estragada, o que me obriga a passar em uma oficina. Vou a um bicicleteiro que está no ramo há mais de 40 anos, o que prova que é possível sobreviver sem passar em um concurso público. Admiro esse homem, faz o que gosta, é o seu próprio chefe, assistiu o apogeu do automóvel e hoje acompanha a redenção da bicicleta, em tempos ecologicamente corretos. Nunca o encontro sem trabalho. Ele vem, olha a minha bicicleta, faz uns ajustes e geralmente não cobra nada. Em pouco tempo estou pronto para as pedaladas do semestre.

As férias são curtas, é preciso andar o máximo possível, tão longe quanto se puder, e assim eu percorro as ruas da cidade, dando preferência para aquelas por onde eu nunca passei. Sou sem dúvida um explorador, e não é prova de outra coisa o fato de, vez ou outra, entrar numa rua sem saída. Há em cada bairro um mundo a se descobrir, e é com curiosidade que olho os nativos que encontro pelas ruas, tentando imaginar como seria viver no meio deles. E dizer que é possível crescer, amar e morrer em tantos lugares onde eu nunca havia posto os olhos! Encontro praças, igrejas, escolas de que eu não suspeitava. Andar de bicicleta diminui a minha ignorância e ajuda a satisfazer o insaciável desejo de coisas nunca vistas.

Há talvez mais uma coisa que esse tipo de passeio é capaz de fazer. Um dia um sujeito apresentou ao velho Braga toda uma teoria sobre as vantagens de se andar de bicicleta quando se está sofrendo por obra de amores: “De bicicleta o sujeito vai pensando no seu caso, e ao mesmo tempo vai castigando um pouco o corpo, fazendo esforço, com o sol no crânio. Além disso, não pode dar inteira atenção à sua própria alma, porque deve prestar alguma ao trânsito.” Seria esta a forma mais tolerável de se locomover nessas condições! No momento, não carrego nenhum amor a me oprimir o peito, mas tenho cá as minhas questõezinhas, algumas lutas que já se estendem há muito tempo, pequenas melancolias de uma vida. E vou me lembrando delas enquanto pedalo, à medida que desvio de carros, pedestres, às vezes um cachorro. Não é improvável que a decisão que mudará a minha vida seja tomada enquanto coloco mais força nas pernas para percorrer uma subida que se mostrou íngreme. Muita coisa melhora só em soltar o guidão, durante uma descida.

Andar de bicicleta diminui a minha ignorância e ajuda a satisfazer o insaciável desejo de coisas nunca vistas.

De vez em quando a chuva me pega e preciso encontrar o abrigo de um ponto de ônibus. Ou então é o sol que se torna quente demais e acho melhor parar um pouco para me refrescar. Às vezes sou eu mesmo que exijo demais do meu corpo, pouco acostumado aos exercícios, e começo a sentir cãibras. Sou um sujeito que luta com as forças naturais e tem preocupações de homem, de ser humano. Andar de bicicleta também é uma forma de se saber vivo – mas vivo mesmo, e não isso que deixamos fazer com a gente na rotina das grandes cidades.

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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