Henrique Fendrich

Um elogio ao computador

Já não posso dizer que nasci na época errada. Duas gerações, apenas duas gerações atrás, e eu não conseguiria me comunicar. Porque seria preciso falar, falar sempre e em todas as situações, mas falar é improvisar, e eu não sei falar coisa alguma sem pensar em tudo o que vou dizer. Falar não admite backspace. Por isso me atrapalho, eu sei que me atrapalho, e nada mais natural que então eu evite falar, que fale apenas o necessário. Entretanto, eu desejo me comunicar, há muitas coisas que passam pela minha cabeça e eu gostaria que elas chegassem a outras pessoas. Poderia escrever, mas escrever para quem, quem iria ler, se todos estavam acostumados a falar de viva voz mesmo? Não, eu permaneceria incomunicável sem computador.

Seria impenetrável, meu silêncio perturbaria a todos, e isso o tempo inteiro, não apenas naqueles tristes momentos em que escrever não é de nenhuma serventia. Mas agora, do Windows 95 para cá, existem alguns instantes no meu dia em que eu estou em igualdade de condições com o resto do mundo, se é que não estou melhor, pois eu já gostava de escrever, conhecia as regras, os macetes, não tive nenhuma dificuldade quando o mundo precisou se adaptar e escrever para continuar existindo. E eu me saio tão bem, me sinto tão à vontade, que seria até estranho se não gostasse de passar meu tempo ali, diante de uma tela que não me olha, não me julga, e que se algo der errado ainda me permite fechar a janela e fugir.

Do Windows 95 para cá, existem alguns instantes no meu dia em que eu estou em igualdade de condições com o resto do mundo.

Mas de toda parte chegarão apelos, sai da frente desse computador, vai dar uma volta, vai conversar com gente de verdade, e sempre vêm de quem não é tímido, ou fóbico, ou feio, ou inseguro, ou desajustado, ou seja, de quem já vivia muito bem antes de ter um computador em casa. Claro, nem por um momento eu negaria a superioridade da vida real, mas tem gente que tem mais dificuldade, não sabe como interagir com as pessoas, e aí o computador ajuda, diminui um pouco a solidão, torna a vida mais tolerável, chega a dar até uma esperança…

Porque eu não conheço quem não tenha tentado sair do virtual para o real, quem não tenha tido a impressão de que o real seria um pouco mais fácil se antes tivesse passado pelo virtual. Nem sempre dá certo, às vezes só depois de se encontrar pessoalmente é que a gente percebe como é diferente, às vezes a gente não consegue ser ao vivo da mesma forma que a gente é online. Ah, mas basta um, um caso de sucesso, de gente que se conheceu pela internet, casou e foi feliz para sempre, para que a gente ache que também é o nosso caso e viva nessa expectativa.

Assim cruzei cidades, mais de uma vez, tentando transformar em realidade o que meus dedos digitavam e o que meus olhos liam, sem ter muito sucesso, é verdade, mas quem pode dizer que não aprendi alguma coisa, que no fim das contas eu não esteja lidando melhor com este mundo concreto por trás dos teclados? É certo que ainda não tão bem quanto escrevo, ando escrevendo cada coisa, ando arrancando cada confissão do peito, e pior, sem medo de colocar no ar, nessa grande rede mundial de computadores que me tornou, a seu modo, um tagarela.

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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