Henrique Fendrich

Uma miséria só

Era preciso economizar, ou não haveria o que comer até o fim do mês. A gente sempre brinca que o salário acaba antes do mês, mas nem por isso deixamos de comer. Acaba o salário, mas as pessoas ainda comem, e essa era uma mágica que ele não podia entender. Talvez deixem de pagar alguma conta. Ele não tinha outra conta além do aluguel, o primeiro aluguel naquela cidade desconhecida. Como não se confia mais em ninguém, ele precisa pagar o aluguel antes de ocupar a casa. Mas para trabalhar ninguém paga o salário no primeiro dia, tem que esperar até o fim do mês. Ele paga o aluguel, paga porque precisa, tem que arrumar logo um lugar para morar, mas não vai receber senão dali a muitos dias. E agora ele não sabe se vai conseguir o que comer até o fim do mês.

É preciso ajustar a dieta. No café da manhã, bolachas recheadas. No almoço, um ou dois pastéis. Janta, janta não tinha, janta é para quem vive bem. No máximo, chupava uns cubos de gelo, pois cubos de gelo ainda eram de graça, ou melhor, já estavam incluídos no preço do aluguel. Voltava do trabalho a pé, percorria as 12 quadras caminhando, pois assim economizava a passagem do ônibus. Podia ir a pé até lá também, mas aí chegaria todo suado na empresa. Em todo caso, se a coisa apertasse ainda mais, iria a pé também. Voltava caminhando, voltava sem muita vontade de voltar, porque também não tinha nada o que fazer naquela casa que lhe comeu o dinheiro.

A gente sempre brinca que o salário acaba antes do mês, mas nem por isso deixamos de comer. Acaba o salário, mas as pessoas ainda comem, e essa era uma mágica que ele não podia entender.

Não tinha computador, não tinha Internet e nenhum amigo por perto. Ficava vendo um pouco de TV, mas rapidamente se cansava da programação da TV aberta, e então lia, lia livros de literatura, lia também a Bíblia, mas o conforto que conseguia não era muito. Enjoava de tudo e só queria dormir, e no dia seguinte começaria tudo de novo, o dia seguinte ainda não era o dia em que receberia o seu salário.

Mas não conseguia relaxar, enviava mensagens para a sua ex-namorada. Era por causa dela que ele havia parado naquela cidade, mas o namoro não foi longe, e de repente ele se viu sozinho e despreparado em uma cidade estranha. Enviava mensagens para a sua ex-namorada, em parte porque atribuía a ela a culpa daquilo tudo. A sua vida não ia bem, mas ele a tornava pior quando falava com ela. Queria chamar a atenção dela para o seu problema, na esperança de que fizesse algo em seu favor. Queria mesmo que ela fizesse algo em seu favor, àquela altura já não tinha orgulho nem amor-próprio. Mas ela não sabia o que fazer e ele se exasperava com isso, como se ela tivesse a obrigação de saber. Terminavam sempre brigando.

Houve um dia que ele saiu do trabalho e não quis voltar para casa. Ficou andando pelo shopping, vendo vitrines, entrando nas livrarias e vendo livros que não poderia comprar. Só voltou para casa, a pé, duas horas depois. E quando chegou viu que tinha alguém esperando por ele. Era a ex-namorada e era um amigo dela, que ele também conhecia. E os dois tinham para ele uma espécie de cesta, tinham ido ao mercado e comprado comida para no mínimo uma semana. Havia pão, frutas, leite, iogurte, biscoitos, e até uma barra de chocolate. Eram todas coisas que ele podia comer sem precisar cozinhar, pois também não tinha fogão em casa. E era a coisa mais bonita que alguém já havia feito por ele, mas ele não sabia bem como reagir, e só agradeceu, bastante sem jeito.

Depois que se despediram, depois, quando ele levou a comida para dentro, é que lhe ocorreu uma coisa. Será possível que a sua ex-namorada e aquele amigo… Será possível que, os dois… Procurou então o telefone, precisava tirar a limpo aquela história. E ligou para ela, e fez uma cena de ciúme tão injusta que o melhor talvez fosse que ele morresse de fome.

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Henrique Fendrich

Henrique Fendrich é jornalista, escritor e pesquisador. Mantém a “RUBEM”, única revista digital sobre crônica, e é autor dos livros “Brasília quando perto” (2013) e “Deus ainda não acabou com tudo” (2014), ambas coletâneas de crônicas. É organizador do blog literário “Vida a Sete Chaves”. Também escreve livros de história e genealogia, além de textos para os jornais “Folha do Norte” e “Evolução”, de São Bento do Sul/SC.

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