A minha utopia

A minha utopia

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Há dias em que a gente se sente mais trancado do lado de dentro. Pouco disposto a conversas na calçada, trocas de risadas sem motivos aparentes, e com muita vontade de silêncio. Para talvez refletir sobre o que está além dos limites da porta: o mundo e suas marés.

Nessas horas ensimesmadas, procuro olhar através da janela, buscar o horizonte e seus mistérios. Fico a escavar o tempo, as horas que tendem a passar mais devagar, em busca de significados para a existência. Não necessariamente a minha, mas a coletiva, que envolve desde o araçá, árvore plantada na frente do meu prédio, até quem está longe, do outro lado da cidade, mas que, naquele instante, se torna elemento essencial da minha paisagem inventada, minha utopia particular.

Nesses dias de introspecção, que tendem a se iniciar sonolentos, até arrastados, muitas vezes sou surpreendido por pequenas epifanias, que são aqueles lances do cotidiano, vagalumes em forma de fatos desimportantes, que nos apontam uma ou várias direções, atestando a existência de caminhos nem sempre visíveis o tempo todo, mas que se escondem no vasto território das possibilidades.

Nesses dias de introspecção, que tendem a se iniciar sonolentos, até arrastados, muitas vezes sou surpreendido por pequenas epifanias, que são aqueles lances do cotidiano, vagalumes em forma de fatos desimportantes, que nos apontam uma ou várias direções.

Pode ser uma frase ouvida no ônibus, em meio a uma conversa entre amigos, regada a boas risadas, vertendo intimidade, que, pelo menos para mim, é a essência de quase tudo que vale a pena. Também arrisca estar na letra de uma improvável canção no rádio, que há anos não ouço e naquele preciso instante parece tocar para mim, a me trazer conforto.

Esse alento, do qual tanto necessitamos para enfrentar a realidade, tem um tanto de efêmero, mas por isso mesmo indestrutível, porque guarda a contundente importância de sua breve existência, como um avião de papel que cruza, de repente, o céu azul, vindo ninguém sabe de onde, sem rumo aparente. Ele é a poesia que se concretiza do nada no ar. E, sem muita explicação, destranca a porta para que retornemos, em suas asas, ao mundo que deixamos lá fora em dias como este, o tornando mais belo e humano.

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Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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