Desapego

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Whole big wall covered with lot of books

Há algum tempo, não sei exatamente quanto, ando perdendo o prazer de comprar.

Não se trata de uma mudança de hábito com motivações conscientemente ideológicas. Até poderia tirar da manga um discurso edificante sobre os malefícios do consumismo exacerbado, mas, em certa medida, estaria sendo hipócrita, embora tenha, sim, preocupações genuínas com sustentabilidade e desperdício.

Esse meu surto de desapego, que deve ter dado seus primeiros sinais há, talvez, uns quatro, cinco anos, não tem uma motivação específica. Apenas fui percebendo que precisava de muito menos, sentindo que eu e minhas coisas ocupavam espaço demais. Se, em um passado hoje já um tanto distante, entrava em uma grande livraria com a certeza de que não sairia com as mãos vazias, hoje tenho uma visão mais realista de minha condição de leitor (e apaixonado por cinema e música).

Não me desencantei com o mundo das letras, longe disso. Mas hoje tenho consciência das limitações de tempo (e espaço físico): todas as vezes que olho para as prateleiras de minhas estantes, e constato que há muitos títulos que ainda não foram lidos, adquiridos por impulso, ou discos e filmes quase intocados desde que chegaram da loja, percebo que ter, definitivamente, não é poder.

Faço as contas, e me dou conta que talvez muitos dessas obras nunca cheguem aos meus olhos e, portanto, passaram a ter função meramente decorativa.

Não me desencantei com o mundo das letras, longe disso. Mas hoje tenho consciência das minha limitações de tempo (e espaço físico): todas as vezes que olho para as prateleiras de minhas estantes, e constato que há muitos títulos que ainda não foram lidos, comprados por impulso, ou discos e filmes quase intocados desde que chegaram da loja, percebo que ter, definitivamente, não é poder.

Paradas, ainda que bem guardadas, à minha espera, o que antes me dava uma certa sensação de prazer – ou seria um misto de poder e conforto? –, hoje me inquieta. Além do desperdício que representam, atestam o meu excesso de ambição, até mesmo pretensão. Essas obras todas talvez estivessem muito melhor circulando pelo mundo, passando de mão em mão – livro parado, sem leitores, é mero enfeite, natureza morta.

Às vezes, observando o mundo ao meu redor, tenho a impressão de que o excesso de consumo sinaliza um certo vazio existencial, que precisa ser preenchido por coisas das quais não necessitamos de verdade. A não ser para proporcionar o efêmero deleite de adquiri-las. À medida que a vida avança, percebo que, pelo menos em mim, o desejo de viver, ser, tornou-se bem maior do que o de possuir. Simples assim.

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Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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