O lobo atrás da porta

O lobo atrás da porta

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lobo atrás da porta
Imagem do clipe da canção "Wolf at the Door", da banda Radiohead. Foto: Reprodução.

Implacável. Convicto. Senhor da verdade. De uns tempos para cá, esse monstro, que parece tudo saber, e se acredita capaz de formular julgamentos definitivos, irreversíveis, mais parecendo uma máquina de colar rótulos em escala industrial, vem se tornando figura recorrente na paisagem brasileira. E se multiplica, dando crias em todo os cantos, reais e virtuais, como praga. É um espírito ladrão de almas, avesso à sensatez, incapaz de escutar.

Pensando bem, deve ser mais fácil, nesses dias obscuros em que vivemos, optar por um mundo sem matizes, desprovido de nuances: quem não compartilha de nossas crenças e opiniões é imediatamente colocado no time adversário e vira inimigo, o “outro” a ser combatido, desconstruído, neutralizado a qualquer custo. Regredimos a uma primeira infância ideológica, povoada por mocinhos e bandidos.

Implacável. Convicto. Senhor da verdade. De uns tempos para cá, esse monstro, que parece tudo saber, e se acredita capaz de formular julgamentos definitivos, irreversíveis, mais parecendo uma máquina de colar rótulos em escala industrial, vem se tornando figura recorrente na paisagem brasileira.

O jogo da vida foi simplificado, reduzido a um certame maniqueísta. A habilidade de ouvir, e ponderar, atrofia-se a olhos vistos, à medida em que se desenvolve uma espécie de surdez conveniente. Palavras são tiradas de contexto, opiniões que relativizam o idealismo, a ingenuidade, e o fervor de quem acredita cegamente em uma verdade que não (mais) existe, são encarados como alta traição. Uma letra escarlate estampada no peito.

Nesse “nós e eles”, não importa de que lado se esteja, admitir erros, reconhecer em voz alta atos criminosos, indignos de quem antes advogava justiça e dignidade para todos, tornou-se anátema, pecado mortal. Que mundo é esse, no qual a verdade é reles detalhe, ou apenas uma questão de ponto de vista? Quando nos convém, é tudo invenção.

Esse monstro à espreita, invasor de corpos, assusta, porque considera lucidez e bom senso meros detalhes. Os fins justificam os meios. Tudo em nome de uma causa sem justificativas, forjada para convencer os mais suscetíveis e, portanto, frágeis, de uma ficção, uma fábula inventada. Sinto sua respiração quente, percebo seu rancor. Melhor trancar a porta, respirar fundo e prosseguir, a despeito de seus grunhidos. Ele não merece mais minha atenção.

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Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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