Paulo Camargo

Quanto vale a morte?

“Olha a cremação! A cremação!” Em meio a homens e mulheres pagos por dia para distribuir anúncios impressos de cursos de informática, tratamentos ortondôticos e produtos em oferta numa cadeia de lojas de cosméticos, uma mulher vendia seu peixe, a plenos pulmões, às 9 e tanto da manhã, na Praça Rui Barbosa, perto da esquina com a Rua Desembargador Westphalen.

O tom de entusiasmo decidido com que gritava me fez parar. Não com o intuito de pedir informações, mas para ter certeza de que eu não ouvira errado o seu anúncio, que dispensava alto-falantes ou megafones. Enquanto seus concorrentes tentavam empurrar aos passantes produtos e serviços que, cada um a sua maneira, eram promessas de uma vida melhor, com dentes alinhados e pele mais macia, ela vendia a morte, o inevitável retorno às cinzas. À vista ou no cartão.

Antes que o leitor comece a pensar em largar este texto – afinal, o tema da finitude não é lá muito popular –, vou tranquilizá-lo. Meu objetivo aqui não é discutir a negação da morte por uma sociedade cada vez mais hedonista e obcecada pela felicidade a todo custo. Prefiro dedicar este espaço à tentativa de responder uma pergunta ao mesmo tempo simples e bem danada: o que eu faria se soubesse que minhas horas estão contadas?

“Sem querer, a brava representante de um crematório cujo nome vou omitir para não fazer publicidade gratuita, me fez perceber que eu nunca havia parado para refletir sobre a importância de ter o poder de decisão sobre o que fazer com meus restos mortais quando eu não estiver mais vivo para opinar.”

Desde que assisti a Melancolia, filme do alucinado dinamarquês Lars Von Trier, que fala da possibilidade concreta de o mundo acabar quando um planeta muito maior do que o nosso se chocar contra a Terra, fiquei encasquetado com essa hipótese. A de que minha jornada possa estar chegando ao fim em questão de dias.

Descartada a possibilidade de conseguir ler todos os livros que se acumulam há anos em minha lista de “obrigatórios” e aos quais não consegui chegar, acho que gostaria de rever alguns filmes – e pessoas que talvez não saibam como fizeram diferença na minha vida. Estão no Rio de Janeiro, na França, na Bahia, em Nova York ou no outro lado da cidade. As distâncias, a esta altura, me parecem irrelevantes, porque não podem ser medidas em quilômetros, em horas de voo, mas, sim, em palavras não ditas, em abraços abortados e, principalmente, em tempo não compartilhado. Experiências que deixaram de ser vividas por motivos tantos que nem sei ao certo quais são ou se merecem ser lembrados.

Feito isso, tentaria estar perto dos que estão ao meu alcance e que realmente importam, de preferência ao som de boa música, acompanhada de vinho, ou algo mais forte. Com esses poucos e bons, esperaria o baque, o ponto final. Acho que isso me bastaria. Além da certeza de que gostaria de ser cremado, uma vez encerrado o assunto. Disso, me dou conta agora, faço absoluta questão. A mulher da Praça Rui Barbosa (com a ajuda de Von Trier) me convenceu.

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Paulo Camargo

Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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