Paulo Camargo

A subversão do riso

Rir faz bem, eu sei. Alto, em bom som e sem pudores. Porque a vida, até em seus momentos mais devastadores, guarda momentos que, de tão engraçados, podem ser desconcertantes. Talvez, por isso, a arte da comédia seja dominada por muito poucos. Há que se ter inteligência, senso de observação e, sobretudo, sensibilidade para se perceber que o riso não é uma solução escapista, mas uma espécie de confronto desarmado que não se opõe ao choro, mas de certa forma pode torná-lo mais complexo, e vice-versa.

Dito tudo isso, devo confessar que nunca fui louco por comédias. Não gosto de perceber que um filme, uma série, um livro ou uma peça de teatro quer me fazer rir de forma premeditada, mecânica. Se a gargalhada não vem na hora certa, e eu simplesmente não vejo graça no que deveria ao menos me divertir, fico impaciente, e um tanto frustrado. Sinto-me um extraterrestre.

Uma das experiências mais intensas que já tive com uma comédia foi ao assistir, com uns 11, 12 anos, ao filme Um Convidado Bem Trapalhão (The Party), realizado em 1968 pelo mestre Blake Edwards, mas que só fui ver na tela grande quase uma década mais tarde. O extraordinário Peter Sellers, um ator de mil faces e sutilezas, vive o papel de Hrundi V. Bakshi, astro indiano que, em vez de ser demitido, é convidado, por engano, para um festa de arromba em uma Hollywood mergulhada na psicodelia e na contracultura.

Uma das experiências mais intensas que já tive com uma comédia foi ao assistir, com uns 11, 12 anos, ao filme Um Convidado Bem Trapalhão (The Party), realizado em 1968 pelo mestre Blake Edwards, mas que só fui ver na tela grande quase uma década mais tarde.

Edwards, diretor de clássicos como Bonequinha de Luxo e Victor ou Victoria?, sabia, como poucos, fazer rir e pensar. Ao mesmo tempo em que construía cenas de irresistível apelo cômico, levando o público às gargalhadas, provocava o público a pensar sobre as contradições de Hollywood, questões de gênero, de classe social e raciais. Um Convidado Bem Trapalhão brinca e subverte estereótipos. Parece ter como protagonista uma caricatura de um homem indiano, mas está, na verdade, colocando na mira a própria indústria do cinema e sua fogueira de vaidades, seus preconceitos e superficialidade.

Bakshi é um peixe fora d’água que evidencia um universo de artificialidades à medida em que se mete nas situações mais insólitas, e hilariantes, numa festa que é uma verdadeira metáfora de um mundo em transformação no emblemático ano de 1968. Tenho absoluta certeza de que, ao assistir ao filme pela primeira vez, não tinha completa noção de seu caráter subversivo. Era um pré-adolescente e ri tanto que cheguei a sentir espasmos estomacais. Jamais vou esquecer dessa sensação transcendente, catártica, e, sem perceber, aprendi que, se o riso lava a alma, também alimenta o espirito.  .

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Paulo Camargo

Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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