Paulo Camargo

Um moinho de vento

Moro em um prédio pequeno, de apenas cinco andares, com dez apartamentos, nem todos ocupados. É uma pequena comunidade de pessoas de várias gerações que compartilham um mesmo endereço, e acabam se vendo muito pouco, o que, toda vez que paro para pensar, acho meio surreal. Às vezes, os encontros acontecem no elevador, ou na garagem. Também vejo meus vizinhos entrando ou saindo no portão de entrada do edifício, e os cumprimentos são sempre cordiais, acompanhados de sorrisos, palavras gentis, mas, ouso dizer, acabam não indo muito além disso. A pressa costuma dar o tom a esses tropeços não planejados, acidentais, moldados pela timidez curitibana.

Na última semana, uma causa comum uniu os moradores do condomínio Mariângela. Na calada da noite, um caminhão, que ninguém viu direito por causa da escuridão, derrubou um poste na rua de paralelepípedos onde moro e com ele foram os sinais de telefone, internet e tevê paga. O motorista nem se deu ao trabalho de parar o veículo e nenhum morador teve tempo de anotar a placa do veículo grandalhão e barulhento. Fugiu, deixando nossa pequena aldeia vertical sem saber o que fazer.

A primeira reação foi de alívio. O fornecimento de energia elétrica não havia sido interrompido. Mas, quando começamos a ligar pelo celular para todas as empresas operadoras dos serviços que se foram com a imprudência criminosa do motorista fujão, nos demos conta de um fato insólito: o poste não tinha dono.

A primeira reação foi de alívio. O fornecimento de energia elétrica não havia sido interrompido. Mas, quando começamos a ligar pelo celular para todas as empresas operadoras dos serviços que se foram com a imprudência criminosa do motorista fujão, nos demos conta de um fato insólito: o poste não tinha dono.

Pelo WhatsApp do edifício – sim, temos mais intimidade virtualmente -, fomos compartilhando informações que obtínhamos junto às operadoras, e a resposta era mais ou menos a mesma. Sem poste, não seria possível reinstalar os serviços, e logo os atendentes das empresas iam deixando claro que substituir a peça de concreto não era responsabilidade deles. Quando nosso obelisco particular estivesse devidamente de pé, daí sim eles enviariam suas equipes. Caso contrário, nada feito.

Foram três dias de empurra-empurra burocrático, que culminaram com uma sentença surreal: “Vocês terão de comprar um poste!”. Depois de ligações para a Prefeitura de Curitiba, Copel, Vivo, Oi e Claro, nem sei mais de onde veio esse absurdo, mas fato foi que começamos a orçar um poste, e sua instalação em um espaço que julgávamos ser público. Enquanto isso, o velho, fraturado e inerte, jazia sobre a calçada atrapalhando o tráfego de pedestres.

A comunidade do edifício só não se tornou a feliz proprietária de um poste novo porque, por conta do desabafo feito por mim numa rede social, a Gazeta do Povo achou a história toda muito absurda, curiosa, e resolveu fazer uma reportagem e acabou descobrindo, quase ao mesmo tempo que nós, moradores, que uma das operadoras de telefonia, a Oi, era a verdadeira dona do famigerado elemento de discórdia. Tão logo soube que a história iria cair na boca do povo, a empresa tratou de despachar uma equipe, que, em dois tempos, colocou de pé um novo poste ao mesmo tempo em que o texto no jornal ía ao ar na internet, narrando a saga dos moradores do Mariângela, que agora, passados alguns dias, já não se falam tanto, mas se cumprimentam com um sorriso cúmplice de dever cumprido. Vencemos o nosso moinho de vento.

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Paulo Camargo

Paulo Camargo é jornalista formado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (1990), mestre em Teoria e Estética do Audiovisual (Universidade de Miami, 2002), onde foi bolsista da Comissão Fulbright, e professor dos cursos de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e do Centro Universitário UniBrasil. Também leciona em cursos de pós-graduação da PUCPR e da Universidade Tuiuti do Paraná, onde é doutorando no programa de Comunicação e Linguagens. Foi editor de Cultura, crítico de cinema e repórter especial do jornal Gazeta do Povo (PR), diário no qual atuou entre 1996 e 2014. É integrante da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Trabalhou nos jornais O Estado do Paraná e Folha de S. Paulo.

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