Yuri Al'Hanati

Como era gostoso o meu café

Uma avaliação sobre minhas predileções na vida há de constar em sua conclusão o estranho fato de que sou um homem de obsessões tardias. Comecei a beber vinho mais regularmente só aos 29 anos, a consumir música erudita mais ou menos pela mesma época e, agora, aos 31, descubro os prazeres do café, passando da total abstinência para ao menos duas generosas canecas por dia. Obviamente já me adiantaria na confecção da réplica ao autor do paper fictício. Que a vida tenha me livrado de me acostumar com as versões chulas dessas artes e me dado o paladar por elas no momento em que eu pude dispor de condições financeiras e sensibilidade para aceitá-las sem reserva na minha vida. Assim, a preenchemos com o que há de realmente bom nesse mundo: ao justo tempo.

Digo isso ao observar meu extrato bancário e verificar o quanto andei gastando com café de qualidade por esses dias. Mais do que imaginaria pagar e mais do que uma pessoa sensata e ignorante sobre as coisas boas da vida. Esses pacotinhos caros e perfumados de grãos levemente torrados que tenho o prazer de moer na manivela de meu pequeno moinho manual todas as manhãs, me tomando minutos preciosos de sono atrasado sem o menor remorso da minha parte, são o motivo da minha felicidade ao acordar cedo todos os dias para a rotina massacrante que me cabe. O aroma perfumando o ar, o abracinho morno que envolve a palma de minha mão quando seguro a caneca, e que transporta seu calor para a corrente sanguínea, depositando conforto e compaixão dentro do peito enquanto ouço algum acordeão cigano que se pronuncia em ondas menores harmônicas em direção aos meus tímpanos é a vontade de vencer o dia se materializando como uma entidade que se manifesta mediante a invocação certa.

O que é esse líquido maravilhoso que escorre pela minha garganta nas primeiras horas do dia e por que é tão diferente daquilo que me venderam a vida toda como café.

O que é esse líquido maravilhoso que escorre pela minha garganta nas primeiras horas do dia e por que é tão diferente daquilo que me venderam a vida toda como café. Digo isso ao observar meu extrato bancário e verificar o quanto andei gastando com café de qualidade por esses dias. Mais do que imaginaria pagar e mais do que uma pessoa sensata e ignorante sobre as coisas boas da vida que é aquele outro pó preto, amargo e adstringente, que dizem ser o orgulho e o sustentáculo financeiro do Brasil? Para trás com esses falsos estandartes, que não quero nada disso. Cafeína não é commodity, é subproduto das delícias do cafezinho matutino. E se desperta, aqui estou: desperto.

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Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati nasceu em Praia Brava, distrito de Angra dos Reis (RJ), em 1986, e reside em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Além de jornalista, atua como cartunista na Gazeta do Povo e publica textos e vídeos no site literário Livrada!, que mantém de forma independente desde 2010.

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