Yuri Al'Hanati

Histórico na família

Já faz mais de um mês que meu pai teve um infarto. Eu não estava perto, mas pelo que me contaram, foi aquela correria para o hospital, viajar de ambulância, a internação, os procedimentos e exames necessários, remédios e agora a mudança, a fase mais difícil. O fato marcou não só por ser uma das poucas vezes que meu pai precisou de atendimento emergencial como também por ser, até onde me consta, o primeiro infarto da família.

Qualquer seguro de vida que eu possa fazer a partir de agora será invariavelmente mais custoso, porque um dos itens da entrevista consiste em saber se eu tenho pais ou filhos com histórico de doença coronariana, infarto, AVC ou diabetes. E parece que agora a resposta é sim.

Isso tem consequências de ordem prática e outras de ordem objetiva. Dentre as primeiras, a mais importante é o histórico. Parentes diretos continuam a escrever a sua genealogia ao longo de suas vidas, mas depois do DNA, o único legado biológico que se pode descobrir sendo deixado de maneira atávica é a propensão a ter as mesmas doenças, uma espécie de perpetuação genética ao contrário. Qualquer seguro de vida que eu possa fazer a partir de agora será invariavelmente mais custoso, porque um dos itens da entrevista consiste em saber se eu tenho pais ou filhos com histórico de doença coronariana, infarto, AVC ou diabetes. E parece que agora a resposta é sim. Não posso relativizar? “Olha, tem meu pai, mas ele se alimentava basicamente de café espresso, cigarro, churrasco e redbull. Era uma bomba relógio”. Mas sei que não é assim que funciona. Meu avô morreu de câncer, e tinha diabetes entre outras complicações do organismo. Meu pai está bem, vivo, mas já tem um infarto na ficha corrida. E eu, portanto, tenho propensão a ter diabetes, câncer e doenças do coração.

O que me leva às consequências de ordem objetiva, que envolvem uma mudança no meu próprio estilo de vida, como se o doente já fosse eu. Mais exercício, menos gordura, mais corridas, menos açúcar, e por aí vai. Pelo menos não preciso parar de fumar porque nunca fumei. Mas não é mais possível sustentar a frágil ilusão de descender de uma linhagem de homens-búfalos, seres poderosos de carapaça dura e órgãos como relógio suíço, inabaláveis pela força do tempo. “Meu bisavô morreu com 99 anos tomando pinga e fumando cigarro de palha todo dia” não será mais uma vantagem a ser contada na família, a quantidade de enfermidades dos últimos anos ultrapassa em muito um senhorzinho de um metro e meio que viveu bem a vida. “A gordura abdominal é perigosíssima, você precisa perder barriga”, qualquer médico me fala com a preocupação protocolar de não deixar ninguém sair do consultório sem saber que ser barrigudo faz mal. Pois eu sei. Tenho histórico na família.

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Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati nasceu em Praia Brava, distrito de Angra dos Reis (RJ), em 1986, e reside em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Além de jornalista, atua como cartunista na Gazeta do Povo e publica textos e vídeos no site literário Livrada!, que mantém de forma independente desde 2010.

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