Monolito de água

Monolito de água

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monolito de água
Foto: Acervo pessoal.

“Aqueles que nasceram longe/ do mar/ aqueles que nunca viram/ o mar/ que ideia farão/ do ilimitado?/ que ideia farão/ do perigo?/ que ideia farão/ de partir?” Os versos de Ana Martins Marques acertam o sentimento de estranhamento com esta entidade tão presente, mas fazem justiça somente aos que viram o mar alguma vez na vida; pouco podem fazer por aqueles que nasceram de frente para o mar, como eu. Porque ver o mar e saber de sua imensidão é diferente de tê-lo como o limitador dos caminhos ao sul, e não importa para onde se partia, o mar acompanhava a trajetória de longe. A vida na pequena praia onde eu nasci só dispunha de três direções.

Fui batizado no mar. Aos quatro anos, aprendi a ficar em pé em cima de uma prancha de surfe. Tirávamos o proveito que a orla possibilitava às crianças, com sua caixa de areia infinita.

Fui batizado no mar. Aos quatro anos, aprendi a ficar em pé em cima de uma prancha de surfe. Tirávamos o proveito que a orla possibilitava às crianças, com sua caixa de areia infinita, as ondinhas que molham os pés e seus objetos curiosos espalhados pelo chão ao sabor das primeiras descobertas. Dez ou vinte metros mais para lá era o limite; cinquenta ou cem, a zona proibida onde por vezes golfinhos davam seus alôs à terra firme em manhãs frias de agosto. Mais do que isso, era o desconhecido. Em alguma parte desse desconhecido, meu pai trabalhava. Mergulhava em águas profundas para cumprir suas obrigações de biólogo e pesquisador. Isso eu não via, só ouvia os relatos quando o Ulisses lá de casa voltava a Íthaca para almoçar.

Até que um dia fui embora e o mundo passou a ter uma rosa dos ventos completa. O mar continuaria ali, e só estava mais longe, eu sabia, mas para quem olha para esses prédios amontoados que somem no meio da poluição e da noite e não sabe para que lado ficam os barcos, é como uma presença dissipada. E como me distanciei do mar! Minha pele branca ficou ainda mais branca e minhas braçadas se tornaram cômicas, para dizer o mínimo. Hoje, com as pessoas da cidade, vou à praia – outra praia, que não é a minha praia – e o que para os outros é exílio, para mim é regresso.

Todo um ritual que me é estranho: arrumar uma mochila, lembrar de levar toalhas, chinelos, protetor solar, pagar pedágio, ficar parado na estrada e dormir em uma cama estranha depois do banho de mar, em uma casa cheia de areia e ardósia que precisa ser toda aberta (pra ventilar) e depois toda fechada antes de partir novamente. Usar pratos, talheres e copos que ou são trazidos junto com as toalhas e chinelos, ou precisam ser retirados de gabinetes velhos e desempoeirados. À noite, muito barulho encobre o barulho do mar: cães, carros com som alto, uma festa que espoca em uma vizinhança inteira formada por turistas. Penso nas pessoas e volto a Ana Martins Marques, agora me fazendo sentido: “quando disserem/ quero me matar/ pensarão em lâminas/ revólveres/ veneno?/ pois eu só penso/ no mar”.

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