Yuri Al'Hanati

O vício de ficar sozinho

A solidão é um vício dos mais intensos. O que a princípio parece angustiante – o silêncio diante do universo e a falta de afeto – logo se torna sinônimo de uma tranquilidade jamais antes experimentada. Quando atingimos a solidão plena, vivemos uma antecipação da calma pós-morte: a inexistência de problemas externos, as desobrigações da vida em sociedade e a desnecessidade do contato humano. Dormimos para o mundo enquanto a vida interior é só vigília.

Mais do que isso, exaurimos ao menor contato interpessoal, como se nos sugassem as energias vitais num simples bate-papo de elevador sobre o clima. Escolher as palavras, cuidar para não ofender as sensibilidades alheias, fingir interesse nas histórias mais desinteressantes e, acima de tudo, não parecer o freak que nos tornamos por qualquer resquício de vaidade que eventualmente brote numa situação em que se lembrar humano é inevitável parecem tarefas hercúleas em dias favoráveis a trocar o tumulto do olimpo pela solidão do mundo inferior. Todos estão felizes, aproveitando uma vida que para nós, parece tão difícil de ser vivida. O memento mori traz de volta as ansiedades e preocupações. A vontade é correr para casa, trancar a porta e respirar no claustro. Eis o vício da solidão. A dependência química do silêncio das paredes sem resposta é igualmente proporcional à repulsa pelo que há do outro lado da porta da rua. Como Georges, no filme Amor, de Michael Haneke, enxotando o pombo que por acaso adentra o lar onde sua idosa companheira agoniza e definha lentamente, dizemos com nosso silêncio que aqui não há espaço para a vida.

A solidão é um vício dos mais intensos. O que a princípio parece angustiante – o silêncio diante do universo e a falta de afeto – logo se torna sinônimo de uma tranquilidade jamais antes experimentada.

Forçar uma saída parece tanto uma tarefa exaustiva quanto sem propósito. Não há esse tipo de vontade na solidão plena. Seria bom pensar que os amigos e as poucas pessoas que ainda nos amam se importam conosco mesmo não lhes retribuindo em nada, e a ideia de ser amado não apenas basta como parece melhor do que experimentar o amor de perto. As pessoas normais dizem “agora que estou envelhecendo, estou ficando chato”, mas não sabem que na verdade estão experimentando os primeiros baratos de um mal que é droga, mas também é câncer: metade nos alimenta, outra metade nos devora.

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Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati nasceu em Praia Brava, distrito de Angra dos Reis (RJ), em 1986, e reside em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Além de jornalista, atua como cartunista na Gazeta do Povo e publica textos e vídeos no site literário Livrada!, que mantém de forma independente desde 2010.

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