Yuri Al'Hanati

Onde estão meus amigos?

Dizem que, depois de uma certa idade, já não é possível fazer melhores amigos. Há quem diga que não é possível sequer fazer amigos e ponto. A fatalidade desses argumentadores é empírica. Frustrados e desgarrados de suas origens, buscam complementariedade em laços líquidos que não suportam a atarantação do dia a dia, o rodo cotidiano que suprime ideias e enfraquece relações. Moramos em cidades grandes e temos a tendência de, com o passar dos anos, enxergarmos os problemas do mundo externo aos nossos muros como insuficientes, de maneira que sentimos a necessidade categórica de criar nossa própria galáxia de probleminhas, que vão desde os conflitos conjugais, passam pelas notas baixas dos filhos e encontram seu horizonte nas reuniões de condomínio. Quem tem tempo, diante disso tudo, para se dedicar a uma amizade com uma frequência maior do que a semanal?

Dizem que, depois de uma certa idade, já não é possível fazer melhores amigos. Há quem diga que não é possível sequer fazer amigos e ponto.

Mas, já devo ter mencionado isso aqui em alguma ocasião, sou um otimista. Talvez o último otimista da face da Terra – o que, por sua vez, também é uma afirmação otimista, já que defende a resistência desse bastião. E penso que o que haja por trás dessa afirmação amarga sobre amizades impossíveis na maturidade seja meramente um caso de weltzschmerz – a incapacidade de confrontar o mundo da mente com o mundo real já era uma questão alemã antes que nos frustrássemos com a efemeridade do barzinho com os amigos. O conceito de amizade e melhores amigos é que continua muito infantilizado, e, na ausência de um insight transformador, martirizamo-nos diante do vazio.

Ora, como isso pode ser comum sentir isso em relação a um dos primeiros tipos de laços interpessoal criados na infância! Então não temos mais tempo para passar o dia subindo em árvores, jogando videogame ou qualquer atividade adulta análoga ao ócio social com quem nos abandonávamos com tanta frequência? Isso não é o fim do mundo, e seria salutar recomendar a quem discordar romper de uma vez com os valores da primeira juventude e focar no próximo paradigma: a da possibilidade de ser uma ilha, para citar Michel Houellebecq por aqui.

Autonomia, em suas mais diversas formas, é um conceito difícil de ser atingido sem uma dose cavalar de solidão, o que não significa não poder contar mais com as pessoas. Os amigos estarão lá, e sempre poderão ouvir os lamentos insignificantes da vida alheia entre as tarefas de preparar uma mamadeira, ir ao cartório ou consertar um vazamento no telhado, tudo a seu tempo.

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Yuri Al'Hanati

Yuri Al'Hanati nasceu em Praia Brava, distrito de Angra dos Reis (RJ), em 1986, e reside em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Além de jornalista, atua como cartunista na Gazeta do Povo e publica textos e vídeos no site literário Livrada!, que mantém de forma independente desde 2010.

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